sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

NOVEMBRO - Jaime Nogueira Pinto




Li avidamente, por força da sua narrativa fluída e consistente, o recém editado livro e 1.º romance de Jaime Nogueira Pinto - NOVEMBRO.

Considero imperdível para quem quiser conhecer um pouco melhor a transição do Estado Novo para "Plutocracia Democrática" de 73 a 75, através do olhar da direita. Vale a pena como contraponto ao "dictat" da história dos últimos 40 anos em Portugal que o "establishement" do arco do poder construiu, à luz dos princípios e práticas da esquerda e do centro-esquerda.

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

terça-feira, 13 de novembro de 2012

COR PÚRPURA


Literatura - Poemas de Carlos Bondoso

É um novo livro de poesia de Carlos Fernando Bondoso. Depois de “Sombras que falam”, chega agora a vez de “Cor Púrpura”, ambos editados pela Chiado Editora. A apresentação é este sábado, 10 de Novembro, às 17h00, na Biblioteca Municipal Aquilino Ribeiro, em Moimenta da Beira. António João Saltão, professor do ensino superior, e Denisa Sousa, jornalista, vão sentar-se à mesa com o autor e dividir a tarefa de esmiuçarem a obra.

No prefácio de “Cor Púrpura”, que colige 107 poemas, João Saltão diz que “ao ler a poesia de Carlos Bondoso, brota automaticamente e espontaneamente no leitor, um imaginário de sortilégios que decorrem de ambiências várias, traduzidas pelo desvanecimento de imagens ao longe, recorrentemente correspondentes ao objecto de desejo por pessoas amadas e/ou por nostalgias de contextos outrora aprazíveis”.


O autor do prólogo escreve ainda que “a descrição intrínseca de atmosferas gris que emergem da solidão e do abandono, estão retratadas magistralmente neste conjunto de poemas, através da doçura paradoxalmente crua do dizer do autor, fazendo desta dicotomia entre o aprazivelmente belo e o desencanto do abandono, a força perturbadora deste livro”. 
  

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

(RE)FUNDAÇÃO OU NOVAS "FUNDAÇÕES" PARA UM PAÍS AFUNDADO

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Nestes últimos dias, ando a pensar numa trilogia de factos da História do nosso País, a propósito de (Re)Fundação. 
1- D. Afonso Henriques fundou a nossa nacionalidade, marco patente no Tratado de Zamora, assinado a 5 de Outubro de 1143;
2 - Em 1935, um postal ilustrado coloca a cabeça de Salazar na representação do corpo do fundador, em alegoria à conhecida estátua de Guimarães, intitulando-o como "Salvador da Pátria";
3 - Em 2012, o Governo PSD/PP "suprime" o feriado de 5 de Outubro, porquanto conotado em exclusivo com a Implantação da República [1910], em claro desrespeito e falta de memória pela data constitutiva da nossa Nação. 
Fala-se num tom análogo ao fundador e líder do Estado Novo e age-se em prol de uma dita "refundação", quando já fomos fundados por D. Afonso Henriques há 869 anos.
Presunção e água benta, cada um toma a que quer.

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

O VERBO FALIR





















Enviado hoje pelo meu amigo e ilustre linguista Zé Armindo de Morais 

E quando pensava que já tinha ouvido tudo acerca da crise, de repente fica-se a saber que, gramaticalmente, é muito difícil que Portugal vá à falência. E, enquanto for gramaticalmente impossível, eu acredito. 

Justifico esta ideia com a seguinte teoria fascinante: normalmente, considera-se que o verbo falir é defectivo. Significa isto que lhe faltam algumas pessoas, designadamente a primeira, a segunda e a terceira do singular, e a terceira do plural do presente do indicativo, e todas as do presente do conjuntivo. Não se diz "eu falo", "tu fales", nem "ele fale". Não se diz "eles falem". Todos os modos e tempos verbais do verbo falir se admitem, com excepção de quatro pessoas do presente do indicativo e todo o presente do conjuntivo. Em que medida é que isto são boas notícias? O facto de o verbo falir ser defectivo faz com que, no presente, nenhum português possa falir. Não é possível falir, presentemente, em Portugal. "Eu falo" é uma declaração ilegítima. Podemos aventar a hipótese de vir a falir, porque "eu falirei" é uma forma aceitável do verbo falir. E quem já tiver falido não tem salvação, porque também é perfeitamente legítimo afirmar: "eu fali". Mas ninguém pode dizer que, neste momento, "fale".

Acaba por ser justo que o verbo falir registe estas falências na conjugação. Justo e útil, sobretudo em tempos de crise. Basta que os portugueses vivam no presente - que, além do mais, é dos melhores tempos para se viver - para que não "falam" (outra conjugação impossível). Não deixa de ser misterioso que a língua portuguesa permita que, no passado, se possa ter falido, e até que se possa vir a falir, no futuro, ao mesmo tempo que inviabiliza que se "fala", no presente. Se eu nunca "falo", como posso ter falido? Se ninguém "fale", porquê antever que alguém falirá? Talvez a explicação esteja nos negócios de import/export. Nas outras línguas, é possível falir no presente, pelo que os portugueses que têm negócios com estrangeiros podem ver-se na iminência de falir. Mas basta que os portugueses não falem (do verbo falar, não do verbo falir) acerca de negócios com estrangeiros para que não "falam" (do verbo falir, não do verbo falar). Eu tenho esse cuidado, e por isso não falo (do verbo falir e do verbo falar).

Bem sei que o prof. Rodrigo Sá Nogueira, assim como outros linguistas, se opõe a que o verbo falir seja considerado defectivo. Mas essa é uma posição que tem de se considerar antipatriótica. É altura de a gramática se submeter à economia. Tudo o resto já se submeteu.

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

QUANDO AS VOZES SE LEVANTAM







































Por definição, plutocracia (do grego ploutos: riqueza; kratos: poder) é um sistema político no qual o poder é exercido pelo grupo mais rico. Do ponto de vista social, esta concentração de poder nas mãos de uma classe é acompanhada de uma grande desigualdade e de uma pequena mobilidade.

Nestes tempos de incerteza em que o regime vacila entre a plutocracia e a degenerescência da democracia, o ainda "bom povo português", não se indignou suficientemente para impedir que "o cabresto" o amesquinhe até à exaustão.

Que haja mais indignação.

J. Saltão

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

PARADOXO DO NOSSO TEMPO














Nós falamos demais, amamos raramente, odiamos frequentemente.
Conduzimos rápido demais, ficamos acordados até muito mais tarde, acordamos muito cansados,
Lemos muito pouco, assistimos TV demais, perdemos tempo demais em relações virtuais, e raramente estamos connosco.
Multiplicamos nossos bens, mas reduzimos nossos valores.
Aprendemos a sobreviver, mas não a viver;
Adicionamos anos à nossa vida e não vida aos nossos anos.
Fomos e voltamos à Lua, mas temos dificuldade em cruzar a rua e encontrar um novo vizinho.
Conquistámos o espaço, mas não o nosso próprio.

Fizemos muitas coisas maiores, mas pouquíssimas melhores.
Limpámos o ar, mas poluímos a alma;
Escrevemos mais mas aprendemos menos;
Planeamos mais, mas realizamos menos.

Estamos na era do 'fast-food' e da digestão lenta;
Do homem grande, de carácter pequeno;
Lucros acentuados e relações vazias.

Esta é a era dos dois empregos, vários divórcios,
Casas chiques e lares despedaçados.
Esta é a era das viagens rápidas,
fraldas e moral descartáveis,
dos cérebros ocos e das pílulas 'mágicas'.
Paradoxo do Nosso Tempo
George Carlin

terça-feira, 21 de agosto de 2012

PORTUGUESES ....QUANDO VOS INDIGNAIS?




























Nada tão acertado como as palavras de Torga ...

Excelente caracterização dos portugueses que embora escrita há mais de 30 anos, continua tão actual ....

sexta-feira, 27 de julho de 2012

O (DES)ACORDO ORTOGRÁFICO
















"Tem-se falado muito do Acordo Ortográfico e da necessidade de a língua evoluir no sentido da simplificação, eliminando letras desnecessárias e acompanhando a forma como as pessoas realmente falam. Sempre combati o dito Acordo mas, pensando bem, até começo a pensar que este peca por defeito. Acho que toda a escrita deveria ser repensada, tornando-a mais moderna, mais simples, mais fácil de aprender pelos estrangeiros.

Comecemos pelas consoantes mudas: deviam ser todas eliminadas. É um fato que não se pronunciam. Se não se pronunciam, porque ão-de escrever-se? O que estão lá a fazer? Aliás, o qe estão lá a fazer? Defendo qe todas as letras qe não se pronunciam devem ser, pura e simplesmente, eliminadas da escrita já qe não existem na oralidade.

Outra complicação decorre da leitura igual qe se faz de letras diferentes e das leituras diferentes qe pode ter a mesma letra. Porqe é qe “assunção” se escreve com “ç” e “ascensão” se escreve com “s”? Seria muito mais fácil para as nossas crianças atribuír um som único a cada letra até porqe, quando aprendem o alfabeto, lhes atribuem um único nome. Além disso, os teclados portugueses deixariam de ser diferentes se eliminássemos liminarmente o “ç”. Por isso, proponho qe o próximo acordo ortográfico elimine o “ç” e o substitua por um simples “s” o qual passaria a ter um único som. Como consequência, também os “ss” deixariam de ser nesesários já qe um “s” se pasará a ler sempre e apenas “s”.

Esta é uma enorme simplificasão com amplas consequências económicas, designadamente ao nível da redusão do número de carateres a uzar. Claro, “uzar”, é isso mesmo, se o “s” pasar a ter sempre o som de “s” o som “z” pasará a ser sempre reprezentado por um “z” . Simples não é? se o som é “s”, escreve-se sempre com s. Se o som é “z” escreve-se sempre com “z”. Quanto ao “c” (que se diz “cê” mas qe, na maior parte dos casos, tem valor de “q”) pode, com vantagem, ser substituído pelo “q”. Sou patriota e defendo a língua portugueza, não qonqordo qom a introdusão de letras estrangeiras. Nada de “k”. Ponha um q.

Não pensem qe me esqesi do som “ch”. O som “ch” será reprezentado pela letra “x”. Alguém dix “csix” para dezinar o “x”? Ninguém, pois não ? O “x” xama-se “xis”. Poix é iso mexmo qe fiqa. Qomo podem ver, já eliminámox o “c”, o “h”, o “p” e o “u” inúteix, a tripla leitura da letra “s” e também a tripla leitura da letra “x”. Reparem qomo, gradualmente, a exqrita se torna menox eqívoca, maix fluida, maix qursiva, maix expontânea, maix simplex. Não, não leiam “simpléqs”, leiam simplex. O som “qs” pasa a ser exqrito “qs” u qe é muito maix qonforme à leitura natural.

No entanto, ax mudansax na ortografia podem ainda ir maix longe, melhorar qonsideravelmente. Vejamox o qaso do som “j”. Umax vezex excrevemox exte som qom “j” outrax vezex qom “g”- ixtu é lójiqu? Para qê qomplicar?!? Se uzarmox sempre o “j” para o som “j” não presizamox do “u” a segir à letra “g” poix exta terá, sempre, o som “g” e nunqa o som “j”. Serto? Maix uma letra muda qe eliminamox.

É impresionante a quantidade de ambivalênsiax e de letras inuteix qe a língua portugesa tem! Uma língua qe tem pretensõex a ser a qinta língua maix falada do planeta, qomo pode impôr-se qom tantax qompliqasõex? Qomo pode expalhar-se pelo mundo, qomo póde tornar-se realmente impurtante se não aqompanha a evolusão natural da oralidade?

Outro problema é o dox asentox. Ox asentox só qompliqam! Se qada vogal tiver sempre o mexmo som, ox asentox tornam-se dexnesesáriox. A qextão a qoloqar é: á alternativa? Se não ouver alternativa, pasiênsia. É o qazo da letra “a”. Umax vezex lê-se “á”, aberto, outrax vezex lê-se “â”, fexado. Nada a fazer. Max, em outrox qazos, á alternativax. Vejamox o “o”: umax vezex lê-se “ó”, outrax lê-se “u” e outrax, lê-se “ô”. Seria tão maix fásil se aqabásemox qom isso! qe é qe temux o “u”? Se u som “u” pasar a ser sempre reprezentado pela letra “u” fiqa tudo tão maix fásil!

Pur seu lado, u “o” pasa a suar sempre “ó”, tornandu até dexnesesáriu u asentu. Já nu qazu da letra “e”, também pudemux fazer alguma qoiza: quandu soa “é”, abertu, pudemux usar u “e”. U mexmu para u som “ê”. Max quandu u “e” se lê “i”, deverá ser subxtituídu pelu “i” . I naqelex qazux em qe u “e” se lê “â” deve ser subxtituidu pelu “a”. Sempre. Simplex i sem qompliqasõex.

Pudemux ainda melhurar maix alguma qoiza: eliminamux u “til” subxtituindu, nus ditongux, “ão” pur “aum”, “ães” – ou melhor “ãix” - pur “ainx” i “õix” pur “oinx”. Ixtu até satixfax aqeles xatux purixtax da língua qe goxtaum tantu de arqaíxmux.

Pensu qe ainda puderiamux prupor maix algumax melhuriax max parese-me qe exte breve ezersísiu já e sufisiente para todux perseberem qomu a simplifiqasaum i a aprosimasaum da ortografia à oralidade so pode trazer vantajainx qompetitivax para a língua purtugeza i para a sua aixpansaum nu mundu.

Será qe algum dia xegaremux a exta perfaisaum?"

A DOR DO PACIENTE ESPANHOL























Segundo Nuno Dias da Silva (Civilização do Espectáculo), as revistas bem informadas e especializadas em fazer lóbi, normalmente não falham. O que a «Der Spiegel» e a «The Economist» publicam, quase sempre tem forte possibilidade de acontecer. Na edição de hoje, mais um artiguinho sobre o inevitável resgate total da Espanha. A capa é eloquente, como a imagem documenta. No interior à peça é dado o nome de «O paciente espanhol». Palavras para quê?

quarta-feira, 25 de julho de 2012

É A FALTA DE CULTURA, ESTÚPIDO












Crónica de Clara Ferreira Alves publicada na última edição do Expresso .

"É a falta de cultura, estúpido!

Portugal tem hoje uma pequeníssima elite que consome cultura, quase toda velha e sem sucessores.

... Nós merecemos isto. Nós elegemos esta gente. Nós não somos muito diferentes disto. No meio do anedotário que converteria um homem mais inteligente num homem trágico, convém não esquecer o que nos separa, exatamente, do Relvas. Pouco. O dito não é um espécime isolado, um pob...re diabo animado de força e disposição para fazer negócios e trepar na vida, que entrou em associações e cambalachos, comprou um curso superior e, de um modo geral, se autoinstituiu em conselheiro do rei. Já vimos isto.

Nunca vimos isto nesta escala, porque na 25ª hora da tragédia nacional, quando Portugal se confronta com a humilhação da venda dos bens preciosos (os famosos ativos) aos colonizados de antanho e seus amigos chineses, o que o país tem para mostrar como elite é pouco. Nada distingue hoje a burguesia do proletariado. Consomem as mesmas revistas do coração, lêem a mesma má literatura (que passa por literatura), vêem a mesma televisão, comovem-se com as mesmas distrações. Uns são ricos, outros pobres.

A elite portuguesa nunca foi estelar, e entre a expulsão dos judeus e a perseguição aos jesuítas, dispersámos a inteligência e adotámos uma apatia interrompida por acasos históricos que geraram alguns estrangeirados ou exilados cultos permanentemente amargos e desesperados com a pátria (Eça, Sena) e alguns heróis isolados ou desconhecidos (Pessoa, 0'Neill).

Em "Memorial do Convento", Saramago dá-nos um retrato da estupidez dos reis mas exalta romanticamente o povo. Todos os artistas comunistas o fizeram, num tempo em que o partido comunista tinha uma elite intelectual e de resistência inspirada por um chefe que, aos 80 anos, quase cego, resolveu traduzir Shakespeare. Cunhal traduzindo o "Rei Lear" de um lado, Relvas posando nas fotografias ao lado da bandeira do outro. Relvas nem personagem de Lobo Antunes, o (descritor da tristeza pós-colonial, chega a ser. É um subproduto de telenovela O tempo dos chefes cultos acabou, e se serve de consolação, não acabou apenas em Portugal.

A cultura de massas ganhou. No mundo pop, multimédia, inculto e narcisista, em que cada estúpido é o busto de si mesmo, a burguesia e o lúmpen distinguem-se na capacidade de fazer dinheiro. Acumular capital. O dinheiro, as discussões em volta do dinheiro acentuadas pela falta de dinheiro, fizeram do proletariado (e desse híbrido chamado classe média) uma massa informe de consumidores que votam. E que consomem democracia, os direitos fundamentais, como consomem televisão, pela imagem. Sócrates e o Armani, Passos Coelho e a voz de festival da canção. Nós, e quando digo nós digo o jornalismo na sua decadência e euforia suicidaria, criámos estas criaturas. Os Relvas, os Seguros, os Passos Coelhos, os amigos deles.

O jornalismo, aterrorizado com a ideia de que a cultura é pesada e de que o mundo tem de ser leve, nivelou a inteligência e a memória pelo mais baixo denominador comum, na esteira das televisões generalistas. Nasceu o avatar da cultura de massas que dá pelo nome de light culfure em oposição à destrinça entre high e low. O artista trabalha para o 'mercado', tal como o jornalista, sujeito ao raring das audiências e dos comentários online.

A brigada iletrada, como lhe chama Martin Amis, venceu. Estão admirados? John Carlin, o sul-africano autor do livro que foi adaptado ao cinema por Clint Eastwood, "Invictus", conta que Nelson Mandela e os homens do ANC, na prisão, discutiam acaloradamente, apaixonadamente, Shakespeare. Foram "Júlio César" ou "Macbeth", "Hamlet" ou "Ricardo III" que os acompanharam. Não é um preciosismo. A literatura, o poder das palavras para descrever e incluir o mundo num sistema coerente de pensamento, é, como a filosofia e a história, tão importante como a física ou a álgebra. A grande mostra da Grã-Bretanha nos Jogos Olímpicos é Shakespeare (no British Museum) e não um dono de supermercados ou futebolista.

Os 'heróis' portugueses descrevem-nos. E descrevem a nossa ignorância Passos Coelho é fotografado à entrada do La Féria ou do casino. Um dono de supermercados ou um esperto ministro reformado são os reservatórios do pensamento nacional. Uma artista plástica é incensada não pela obra mas pela capacidade de "agradar ao mercado", transformando-se, pela manifesta ausência de candidatos, em artista oficial do regime. É assim.

Não teria de ser assim. Portugal tem hoje uma pequeníssima elite que consome cultura quase toda velha e sem sucessores. Não estamos sós. Por esse mundo fora, a arte tornou-se cópia e reprodução (daí a predominância dos grandes copiadores de coisas, os chineses), tornou-se matéria tornou-se consumo. Como bem disse Vargas Iiosa, em vez de discutirmos ideias discutimos comida. A gastronomia é uma nova filosofia. Ferran Adriá é o sucessor de Cervantes e de Ortega Y Gasset."

CFA

sexta-feira, 20 de julho de 2012

MORREU O PROF. JOSÉ HERMANO SARAIVA













Acabei de ler a notícia da morte do eminente homem de estado, homem de cultura e grande comunicador que foi JOSÉ HERMANO SARAIVA.

Aqui fica, como sentida homenagem, o meu 1.º "post" no Lusitaneaexpresso em 30 de Março de 2009.

http://lusitaneaexpresso.blogspot.pt/2009/03/carta-aberta-ao-prof-jose-hermano.html

segunda-feira, 16 de julho de 2012

O DIREITO À INDIGNAÇÃO

O verdadeiro "Estado da Nação" traduz-se, por ex.º, nas palavras do ex Vice-Presidente da CM do Porto, que com uma frontalidade pouco comum na nossa terra, desmonta toda a farsa em que assenta esta "plutocracia", que nós portugueses, mais voto menos voto, ajudamos a instalar.

Vejamos aqui o "estado da arte":

A história à partida não se repete nem no tempo nem no modo, mas a indignação e revolta que deu origem, por ex.º à tomada da Bastilha em França, deu origem para lá da grande mudança civilizacional que determinou o rumo da história, à decapitação da elite do poder autocrático dominante. 
Oxalá que por estes dias em Portugal,  não aconteça algo inusitado, decorrente da consciencialização crescente da população, apesar dos chamados "brandos costumes" dos portugueses. 

Atente-se que nos últimos tempos, qualquer detentor de cargo político relevante, quando aparece em actos públicos é vaiado veementemente pela população. Isto é só o princípio ..... O que tiver de acontecer, pois que aconteça sem danos de maior. 
A "paz podre" não se pode eternizar, sob o risco de vivermos tempos de mais infortúnio e desesperança, quando as soluções cercearem os direitos ditos fundamentais, entre outros.

A. João Saltão

sexta-feira, 13 de julho de 2012

PÉ DE GUERRA

Momento naif do dia, segundo o meu amigo Nuno Bettencourt.
Pé de guerra

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Portugal em pé de guerra com a Europa,
... Espanha em pé de guerra com os políticos,
Norte em pé de guerra com o Sul,
Médicos em pé de guerra com o governo,
Governo em pé de guerra com os desempregados.

Tu em pé de guerra contigo mesmo.

O pé em guerra com as pernas,
Sem poder fazer nada.

Governo em pé de guerra com os desempregados.
Sem poderem fazer nada.

Médicos em pé de guerra com o governo,
Sem poderem fazer nada.

Norte em pé de guerra com o Sul,
Sem poderem fazer nada.

Espanha em pé de guerra com os políticos,
Sem poderem fazer nada.

Portugal em pé de guerra com a Europa,
Sem poder fazer nada.

Tu em pé de guerra contigo mesmo.
Sem poderes fazer nada.

Sem poder fazer nada,
Já mudei tanta coisa,
Já parei tanta guerra.

Sem poder fazer nada,
Sozinho posso mudar tudo.

quinta-feira, 5 de julho de 2012

CONTA-ME COMO FOI
















Antigamente os portugueses eram pobres. Com excepção das famosas 60 famílias da propaganda comunista, com os Mello, os Champalimaud e os Espírito Santo à cabeça, quatro quintos dos portugueses eram pobres. O quinto que sobrava era constituído por gente remediada: médicos, advogados, engenheiros e magistrados em início de carreira, professores, quadros médios da administração pública, gerentes bancários, oficiais subalternos do exército, comerciantes, etc. Uns eram mais remediados do que outros: barões da medicina, da advocacia e da engenharia, juízes do Supremo, catedráticos, próceres do Estado, administradores dos grandes grupos económicos, generais e almirantes. A classe média subsumia esta gente.
Pouquíssimos portugueses tinham automóvel (ou mesmo frigorífico), férias no estrangeiro eram uma miragem, e o acesso ao ensino superior estava reservado aos filhos das classes altas e a alunos brilhantes que obtinham bolsas de estudo: Ernâni Lopes, filho de um alfaiate, é um bom exemplo.
Depois de 1970, a classe média integrou os empregados bancários, muito bem pagos por comparação com outras profissões.
A seguir veio a Revolução.
Camelot ficava na margem esquerda, nos estaleiros navais da Margueira. Qualquer professor de liceu, mesmo se davam pelo nome de Rómulo de Carvalho (i.e., o poeta António Gedeão), Matilde Rosa Araújo, Vergílio Ferreira ou Mário Dionísio, ganhava menos que um operário da Lisnave, sem contar com o facto de os contratos colectivos de trabalho da indústria fazerem dos funcionários públicos os novos proletários.
Dez anos depois da Revolução pouca coisa mudara. Metade das pessoas que tinham carro só o usava aos fins-de-semana. A classe média tout court não ia a restaurantes de luxo. Viajar era caro porque um dólar americano valia (em 1984) qualquer coisa como 90 escudos. Comprar caramelos em Badajoz era tão excitante como ir hoje ao Dubai.
De repente, a Europa e os juros baixos viraram Portugal do avesso.
O crédito à habitação, um estratagema congeminado para absorver o meio milhão de retornados das antigas Colónias (e, mesmo assim, com regras difíceis de ultrapassar), foi sucessivamente alargando o seu âmbito. No fim de 2010, ainda os bancos emprestavam 110% do valor da casa, a pagar em catorze prestações anuais. Outros metiam carro no pacote. E muitos garantiam uma verba suplementar para “recheio”. Não era por acaso que Lisboa tinha uma loja de sofás importados em cada esquina. (Estão a fechar à velocidade da luz.) As agências de eventos não tinham mãos a medir. Tirando os excêntricos, nenhum aluno do “superior” usava transportes públicos. As universidades oferecem 900 cursos, dos quais o mercado reconhece 10. Centenas de milhares de portugueses fizeram férias em Cuba, na República Dominicana, no Brasil e na Tailândia. As companhias low cost puseram gente improvável a voar várias vezes ao ano. O cabeleireiro mais obscuro senta os clientes em cadeiras de design italiano. Restaurantes fashion cobram 50 euros por gororobas sem nome.
E, de repente, somos pobres.
Por efeito do corte dos subsídios de férias e Natal, funcionários públicos e pensionistas vêem o seu rendimento anual bruto diminuir 15%. Portugal tem hoje uma taxa de desemprego alarmante: 15,3% da população activa, a terceira maior da Europa, logo atrás de Espanha e da Grécia. Somando as pessoas que não estão inscritas nos centros de emprego, o índice é superior a 18%. A percentagem de jovens (os que têm menos de 24 anos) atinge 36% do total. Só no primeiro trimestre de 2012, duas mil e trezentas casas foram devolvidas aos bancos. O garrote fiscal aperta. A emigração está muito perto dos valores de 1960.
Who cares?
Por Eduardo Pitta em:
http://daliteratura.blogspot.pt/search/label/Nova%20LER

segunda-feira, 25 de junho de 2012

(A)DEUS, PÁTRIA E FAMÍLIA




































 
Como só uma letra pode-se definir uma época...

Portugal, desde o séc. XX, tem estado sujeito a dois lemas:


No Estado Novo (1926-1974), segundo Salazar, o lema era:
  "Deus, Pátria e Família!"

Na democracia, por espantoso que possa parecer, o lema tem sido
praticamente igual, apenas aumentou... uma letra.
De facto, o lema actual, prosseguido pelos responsáveis últimos da situação (Cavaco, Gueterres, Barroso, Sócrates, Coelho, etc. e seus apaniguados e protegidos), é:


 "Adeus, Pátria e Família!"


quarta-feira, 4 de abril de 2012

FAMÍLIA , LIBERDADE E SOLIDÃO


















Há dias uma senhora que eu não conhecia, numa daquelas conversas nascidas espontâneamente num café da Avenida de Roma, disse-me esta coisa extraordinária.

Um homem sem família é como um cão sem dono. Não julgue que é bom ser-se livre de qualquer maneira, acrescentou. Os gatos podem muito bem viver e ser como são porque têm uma liberdade lá deles. Agora os cães, sem dono, são seres tristes à volta do lixo. 

Assim são os homens sem família, repetiu, sem que fosse preciso repetir ..... digo eu.

E um homem sem filhos, acrescentou a senhora, é uma sombra em viagem que nunca mais acaba ..... e justificou. É que um homem assim não tem casa onde ficar. A casa fazem-na os filhos e quantos mais filhos, maior é a casa ..... e eu ouvindo, sem comentar ou retorquir.

Por isso, dizia-me ela, resolva-se a casar logo que encontre noiva. O que dá sentido à vida é uma decisão para toda a vida .... percebe?

Por uns instantes pensei que ela tivesse toda a razão.

Por fim retorqui dizendo: foi o que eu não fiz, minha senhora..... mas, por vezes sou feliz.

João Saltão

sexta-feira, 30 de março de 2012

NATÁLIA DE ANDRADE






















Fabulosa "vida" a desta Mulher que se inventou a Ela própria. Fabulosa Actriz num desempenho dramático de uma vida sem palco, mas que encheu os palcos de Vida. Não é uma DIVA. Foi Ela mesma. E por isso é recordada, e admirada. Quantas vezes teremos nós, a possibilidade de nos rir-mos de nós próprios. 
Saudades da Natália de Andrade.
João Saltão

"A maior cantora lírica de todos os tempos", Natália de Andrade viveu apaixonada pelas personagens das óperas, que interpretava muito à sua maneira.

"A voz de cristal portuguesa", como ela própria o afirmou, fez a sua primeira audição aos 10 anos, para solista do coro das lavadeiras.

- Depois da minha mãe sou a maior cantora lírica do mundo. Callas? Quais Callas, quais carapuça!

Foi com veemência que Natália de Andrade fez esta afirmação e prosseguiu:

- Criei uma maneira diferente de vocalizar, um método maravilhoso: faço escalas apenas durante 10 minutos.

Estreou-se para o grande público aos 15 anos no Coliseu de Lisboa. A sua primeira gravação foi feita nos estúdios Columbia, em Espanha.

Dedicou toda a sua vida à arte.
Ao longo de 60 anos, foi vítima de atentados e apontava como responsáveis a inveja e o ciúme existentes no meio artístico.

-Já ouvi dizer a meu respeito: "É uma grande maçada quando ela aparece!" Tudo inveja!
Adoro a minha arte. Dediquei-me a ela de corpo e alma. De tal forma, que quando fugi para Barcelona, fugi do casamento e do sexo. Aliás, hei-de morrer virgem! Porque eu sou uma mulher apaixonada pela maneira como canto e as relações sexuais iriam afectar a perfeição!

Quando editava um disco, a sua edição imediatamente se esgotava, comprados pelos seus admiradores e conhecedores do seu estilo inconfundível.

Sempre aboliu certas regras existentes, vivendo de forma hiper-dramática as cenas que cantava e levando o seu público ao delírio.

Descrevia-se como uma activista-modernista.

Atribuía parte da inveja que causava, pelo facto de ter sido entusiasticamente ovacionada em Coimbra pelos estudantes, após ter cantado músicas tradicionais de várias regiões de Portugal, imitando as suas pronúncias.

Em 1989, poucos anos antes da sua morte, afirmou:

- Gostava de aparecer aos meus admiradores portugueses e de além-fronteiras com esta idade e com um palco onde pudesse realmente fazer brilhar a minha inimitável voz. Depois de tudo isso já não me importo de morrer. Terei cumprido o meu destino, a vontade de Deus. A vontade que sempre quiseram contrariar, silenciando a minha voz, mas os meus amigos, que tanto me estimam, sempre me avisaram das conspirações e eu saí ilesa.


(Entrevista efectuada em 1989
por Ana Paula Abreu)

segunda-feira, 5 de março de 2012

UM DIA ISTO TINHA QUE ACONTECER

 

Um dia isto tinha que acontecer, por Mia Couto

Está à rasca a geração dos pais que educaram os seus meninos numa abastança caprichosa, protegendo-os de dificuldades e escondendo-lhes as agruras da vida. 
Está à rasca a geração dos filhos que nunca foram ensinados a lidar com frustrações. 
A ironia de tudo isto é que os jovens que agora se dizem (e também estão) à rasca são os que mais tiveram tudo. Nunca nenhuma geração foi, como esta, tão privilegiada na sua infância e na sua adolescência. E nunca a sociedade exigiu tão pouco aos seus jovens como lhes tem sido exigido nos últimos anos.

Deslumbradas com a melhoria significativa das condições de vida, a minha geração e as seguintes (actualmente entre os 30 e os 50 anos) vingaram-se das dificuldades em que foram criadas, no antes ou no pós 1974, e quiseram dar aos seus filhos o melhor.

Ansiosos por sublimar as suas próprias frustrações, os pais investiram nos seus descendentes: proporcionaram-lhes os estudos que fazem deles a geração mais qualificada de sempre (já lá vamos...), mas também lhes deram uma vida desafogada, mimos e mordomias, entradas nos locais de diversão, cartas de condução e 1.º automóvel, depósitos de combustível cheios, dinheiro no bolso para que nada lhes faltasse. Mesmo quando as expectativas de primeiro emprego saíram goradas, a família continuou presente, a garantir aos filhos cama, mesa e roupa lavada.

 Durante anos, acreditaram estes pais e estas mães estar a fazer o melhor; o dinheiro ia chegando para comprar (quase) tudo, quantas vezes em substituição de princípios e de uma educação para a qual não havia tempo, já que ele era todo para o trabalho, garante do ordenado com que se compra (quase) tudo. E éramos (quase) todos felizes.
 Depois, veio a crise, o aumento do custo de vida, o desemprego, ... A vaquinha emagreceu, feneceu, secou.
 Foi então que os pais ficaram à rasca.

Os pais à rasca não vão a um concerto, mas os seus rebentos enchem Pavilhões Atlânticos e festivais de música e bares e discotecas onde não se entra à borla nem se consome fiado.
Os pais à rasca deixaram de ir ao restaurante, para poderem continuar a pagar restaurante aos filhos, num país onde uma festa de aniversário de adolescente que se preza é no restaurante e vedada a pais.

São pais que contam os cêntimos para pagar à rasca as contas da água e da luz e do resto, e que abdicam dos seus pequenos prazeres para que os filhos não prescindam da internet de banda larga a alta velocidade, nem dos qualquercoisaphones ou pads, sempre de última geração.

São estes pais mesmo à rasca, que já não aguentam, que começam a ter de dizer "não". É um "não" que nunca ensinaram os filhos a ouvir, e que por isso eles não suportam, nem compreendem, porque eles têm direitos, porque eles têm necessidades, porque eles têm expectativas, porque lhes disseram que eles são muito bons e eles querem, e querem, querem o que já ninguém lhes pode dar!

A sociedade colhe assim hoje os frutos do que semeou durante pelo menos duas décadas.
Eis agora uma geração de pais impotentes e frustrados.
Eis agora uma geração jovem altamente qualificada, que andou muito por escolas e universidades mas que estudou pouco e que aprendeu e sabe na proporção do que estudou. Uma geração que colecciona diplomas com que o país lhes alimenta o ego insuflado, mas que são uma ilusão, pois correspondem a pouco conhecimento teórico e a duvidosa capacidade operacional.
Eis uma geração que vai a toda a parte, mas que não sabe estar em sítio nenhum. Uma geração que tem acesso a informação sem que isso signifique que é informada; uma geração dotada de trôpegas competências de leitura e interpretação da realidade em que se insere.
Eis uma geração habituada a comunicar por abreviaturas e frustrada por não poder abreviar do mesmo modo o caminho para o sucesso. Uma geração que deseja saltar as etapas da ascensão social à mesma velocidade que queimou etapas de crescimento. Uma geração que distingue mal a diferença entre emprego e trabalho, ambicionando mais aquele do que este, num tempo em que nem um nem outro abundam.
Eis uma geração que, de repente, se apercebeu que não manda no mundo como mandou nos pais e que agora quer ditar regras à sociedade como as foi ditando à escola, alarvemente e sem maneiras.
Eis uma geração tão habituada ao muito e ao supérfluo que o pouco não lhe chega e o acessório se lhe tornou indispensável.
Eis uma geração consumista, insaciável e completamente desorientada.
Eis uma geração preparadinha para ser arrastada, para servir de montada a quem é exímio na arte de cavalgar demagogicamente sobre o desespero alheio.
Há talento e cultura e capacidade e competência e solidariedade e inteligência nesta geração?

Claro que há. Conheço uns bons e valentes punhados de exemplos!
Os jovens que detêm estas capacidades-características não encaixam no retrato colectivo, pouco se identificam com os seus contemporâneos, e nem são esses que se queixam assim (embora estejam à rasca, como todos nós).

Chego a ter a impressão de que, se alguns jovens mais inflamados pudessem, atirariam ao tapete os seus contemporâneos que trabalham bem, os que são empreendedores, os que conseguem bons resultados académicos, porque, que inveja! que chatice!, são betinhos, cromos que só estorvam os outros (como se viu no último Prós e Contras) e, oh, injustiça!, já estão a ser capazes de abarbatar bons ordenados e a subir na vida.

E nós, os mais velhos, estaremos em vias de ser caçados à entrada dos nossos locais de trabalho, para deixarmos livres os invejados lugares a que alguns acham ter direito e que pelos vistos - e a acreditar no que ultimamente ouvimos de algumasalmas - ocupamos injusta, imerecida e indevidamente?!!!
Novos e velhos, todos estamos à rasca.

Apesar do tom desta minha prosa, o que eu tenho mesmo é pena destes jovens.
Tudo o que atrás escrevi serve apenas para demonstrar a minha firme convicção de que a culpa não é deles.
A culpa de tudo isto é nossa, que não soubemos formar nem educar, nem fazer melhor, mas é uma culpa que morre solteira, porque é de todos, e a sociedade não consegue, não quer, não pode assumi-la. Curiosamente, não é desta culpa maior que os jovens agora nos acusam.

 Haverá mais triste prova do nosso falhanço?