O COMBATE POLÍTICO DE SÓCRATES NÃO É O NOSSO
Por JPP no Público, sublinhados meus.
Agora que José Sócrates entra no seu último grande combate político –
que é como ele olha para a sua prisão e para as acusações que lhe são
feitas – e quando o ano eleitoral vai ser dominado pelo confronto entre
os que vão usar a sua “culpabilidade” contra o PS, exigindo demarcações e
purgas, e os que vão ver na prisão de Sócrates uma última manobra dos
“malandros” que nos governam – duas teses politicamente fortes – resolvi
andar para trás, para a memória.
Deixei de lado o argumento “responsável” de que “o que é da Justiça é
da Justiça” e “não se deve misturar Justiça e “política”, porque isso
pouco mais é do que “linguagem de madeira”, langue de bois, que
se pode recitar (e desejar), mas que será varrida pela vida pública
concreta que em democracia não é asséptica e inclui tudo: vinganças e
amizades, desejos e medos, suspeitas e certezas, imagens e factos. Como é
que chegamos aqui? Para quem escreve todas as semanas nos jornais isso
significa: viste o que aí vinha?
No livro que publiquei sobre os “dias do lixo” não os comecei por
Passos Coelho, Relvas, Gaspar e companhia, mas pelos últimos anos de
José Sócrates. Foi aí que começaram os “dias do lixo”. No dia 16 de
Outubro de 2010, governava Sócrates, escrevi no Público um
conjunto de frases para os “tempos de hoje”. Peço desculpa de me citar,
mas a gente também tem de ser avaliada pelo que disse, com data.
As frases eram dirigidas a Sócrates, a um Sócrates que tinha ganho as
eleições e estava em plena loucura de esbanjamento, e a Passos Coelho, a
um Passos que tinha então um discurso contra Manuela Ferreira Leite
muito próximo do de Sócrates. Sócrates caminhava velozmente para o PEC
IV e a bancarrota, Passos Coelho tinha posições pouco distintas de
Sócrates, recusando a austeridade do PC IV, a última que se poderia ter
tido sem troika, porque a achava “excessiva”. Passos Coelho prometia não
aumentar impostos, nem despedir ninguém, nem cortar subsídios de Natal,
nem tocar nas reformas, mas apenas atacar as “gorduras” do Estado.
Ambos estavam pior do que ceguinhos. Quando falo a seguir de
austeridade, falo contra Sócrates e Passos Coelho. E quando elogio a
determinação sobre o défice, a dívida, não falo do Passos Coelho de
2012-4, porque os problemas que ele defronta hoje foram em grande parte
criados por ele próprio, pelo modo como teve de lidar com o descalabro
orçamental gerado pelas despesas sociais resultado da “surpresa” do
desemprego e pela depressão na economia. Como escrevi então, a boa
política é “a que escolhe as melhores medidas de austeridade e evita
as más medidas de austeridade”. Não foi o que aconteceu, a “austeridade”
foi conduzida por um programa ideológico, uma profunda ignorância do
país e muita incompetência – por isso, os problemas que defrontamos hoje
são fruto de Sócrates e Passos Coelho em conjunto.
Retirei uma ou outra frase, não porque não as pudesse incluir, mas para
economia da citação, já de si bastante pouco económica. Serviam apenas
para reforçar a frase anterior. Apesar de tudo isto hoje em 2014
parecerem trivialidades, regressem a esse ano de interregno, 2010, entre
a vitória eleitoral de Sócrates e a sua demissão, e leiam o que se
escrevia e dizia, do PS ao PSD, para comparar.
Aqui vão algumas das frases de 2010, escritas muito antes da troika:
"1. A crise económica, social e política não vai durar um ou dois
anos, vai durar pelo menos uma década. Na melhor das hipóteses.
2. O político que disser que as coisas vão melhorar na volta da esquina está a mentir.(…)
3. Primeiro serão os salários, depois serão as reformas. (…)
4. Nenhum imposto que subiu descerá tão cedo, se descer.
5. Nenhum salário que foi cortado voltará a ser inteiro.
6. Os mais pobres serão as vítimas principais, como sempre.
7. A classe média é que conhecerá a maior queda de qualidade de vida.
8. Algumas pessoas enriquecerão com a crise.
9. A corrupção continuará florescente. (…)
10. A crise matará milhares de pequenas empresas. (…)
11. As escolas tornar-se-ão mais caóticas. O clima de crise social é propício à indisciplina grave.(…)
12. A Saúde ficará bastante mais cara para todos.
13. A TAP pode não sobreviver à crise, a RTP sobreviverá. (…)
14. No final da década os portugueses vão estar pobres e a caminho
de ficarem ainda mais pobres. Se nessa altura a nossa situação da dívida
e do défice estiver controlada, ganhamos a década. Se não, perdemos
ainda mais.
15. O estado dos portugueses será de irritação política, na melhor das hipóteses. Na pior poderá haver violência. (…)
16. Liberais e estatistas todos cortarão no Estado. Só não cortarão nas mesmas coisas.
17. Os nossos direitos face ao Estado tornar-se-ão quase inexistentes. Face ao fisco quase nenhum direito sobreviverá.
18. A nossa privacidade desaparecerá. O Estado vai conhecer por onde
andamos, o que compramos, o nosso dinheiro, as nossas prendas, tudo o
que sirva para taxar. O Google conhecerá o resto.
19. O fisco será a face do Estado mais próxima dos cidadãos e a mais odiada. (…)
20. O desespero será um sentimento muito comum. Os ricos terão depressões, os pobres desespero.
21. Esta década conhecerá na prática o fim dos direitos adquiridos. (…)
22. A única política que se pode considerar patriótica não é a que
se afasta da austeridade para dar “folga” aos portugueses, mas a que
escolhe as melhores medidas de austeridade e evita as más medidas de
austeridade.
23. A maioria das medidas de austeridade que qualquer governo vai
aplicar nos próximos anos é escolhida e decidida no exterior, pela
Alemanha, pela UE, pelas agências de rating, pelo FMI, e pelos
credores.
24. Poucos políticos actuais sobreviverão à década, mas isso não significa renovação.
25. A maioria dos políticos das novas gerações será profissional da
política. Os seus verdadeiros cursos são nos partidos e fora terão
apenas cursos de plástico para colocar o dr. e o eng. antes do nome.
26. Os partidos serão substituídos pelos aparelhos partidários;
fechados sobre si próprios, tornar-se-ão comunidades de poder e com
poder.
27. Haverá cada vez mais familiares de políticos actuais nos lugares políticos.
28. A crise de lugares, empregos, salários, benesses tornará a
competição dentro dos partidos cada vez mais dura, visto que os partidos
serão uma das saídas rápidas para aceder a um lugar remunerado, para
que menos qualificações se exigem. (…)
29. As eleições partidárias internas serão cada vez mais
competitivas, duras e agressivas. Os lugares são poucos e a fome muita.
30. Os grandes interesses organizados terão na prática um direito de veto sobre as principais medidas políticas.
Este foi o mundo que Sócrates deixou e Passos Coelho continuou. A
minha última frase era: "Comparado com o que aí vem nenhuma destas
previsões é especialmente pessimista.” Não foram. A realidade foi muito
pior: desembocou num ex-primeiro-ministro preso, em altos quadros do
Estado presos, na queda do mais poderoso grupo bancário português,
adorado pelos aspirantes a singapurianos novos-ricos entre o Martini man
e o “homem da Regisconta”, que ainda nos governam, pela mistura de
pseudo-aristocracia e altas esferas do dinheiro e do poder.
Em que é que isto tem a ver com a prisão de Sócrates? Tudo. Se ele
deseja um julgamento político, ele que nos deixou de herança Passos
Coelho, como ele foi herança de Santana Lopes, de mim terá apenas a
repetição do que disse no passado.
Para esse peditório político não dou. Este homem fez muito mal a
Portugal. Não o quero preso injustamente, nem o quero preso apenas
porque fez muito mal ao seu país, até porque o fez com milhões de votos
dos portugueses. Desejo-o livre pela sua pura inocência e não pelas suas
atitudes de “animal feroz”, arrastando para o seu gigantesco ego um
combate político que é suposto ter outros alvos e outros motivos. Apesar
das frases politicamente correctas do seu comunicado, pedindo ao PS
para ficar à margem, ele não deseja outra coisa que não seja envolver
tudo e todos no seu destino pessoal, mesmo que isso implique comprometer
a oposição a soçobrar pouco a pouco numa teoria conspirativa.
Protestem, como eu protesto, contra tudo o que seja abuso do poder
judicial, fugas orientadas de informação, humilhações escusadas, mas não
dêem o passo que ele deseja que dêem. Por favor, projectem a recusa
zangada do Governo para melhores causas do que o destino político do
engenheiro Sócrates.
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