Há algo de doente no debate público português. Sentimo-lo todos os dias, mesmo que nem sempre o consigamos nomear. A sensação de que a realidade nos chega filtrada, embalada em narrativas que soam estranhamente prontas, não é acaso nem amadorismo.
Já não enfrentamos a mentira tosca, aquele embuste que se desfaz com um dado ou uma pergunta simples. Enfrentamos a mentira profissional. Uma indústria organizada, com técnicas de comunicação refinadas, concebida para moldar opiniões, proteger interesses e esconder falhas graves de governação.
Esta máquina alimenta-se de um ecossistema mediático concentrado, onde jornalismo, comentário político e assessoria de imprensa se tornaram indistinguíveis.
Em Portugal, o comentário substituiu a investigação. Os comentadores de serviço — ex-governantes, ex-dirigentes partidários, consultores — são os veículos das narrativas oficiais.
Não é preciso proibir a verdade. Basta afogá-la em ruído, em sofismas, em indignações seletivas.
Discute-se o acessório. Silencia-se o essencial.
O efeito mais perverso disto é a inversão total dos papéis. Num ambiente que protege a narrativa oficial a qualquer custo, quem aponta a realidade nua torna-se uma ameaça.
A verdade factual é tratada como o novo discurso de ódio. Se alguém denuncia a insustentabilidade das contas públicas, a degradação do SNS ou a hipocrisia das elites, o sistema raramente responde com dados. Responde atacando o mensageiro. Rotula-o de radical, populista, extremista. A estratégia é desviar do problema para a suposta má índole de quem o aponta.
O medo instalou-se.
O pequeno empresário sabe que, se criticar a carga fiscal, arrisca uma inspeção.
O funcionário público que vê ineficiência cala-se, porque a carreira premeia a lealdade e pune a frontalidade.
O jornalista que tenta fugir ao alinhamento percebe rapidamente que o seu espaço é mínimo. Portugal não precisa de uma ditadura para silenciar.
Basta-lhe o medo.
Esta cortina de fumo serve um propósito claro: manter viva uma máquina estatal hipertrofiada que há muito deixou de servir o cidadão para se servir a si própria. Nenhuma sociedade prospera quando uma classe crescente de parasitas institucionais vive à custa de quem produz.
Os números são conhecidos. Mais de 740 mil funcionários públicos, um número que cresce apesar de todas as promessas.
Multiplicam-se institutos, fundações, observatórios, comissões, entidades reguladoras cuja principal função parece ser a de garantir salários dourados aos seus administradores.
A função pública tornou-se, para uma franja nada desprezível, um refúgio de emprego perpétuo, progressão automática, avaliação fictícia.
Não se trata de todos os funcionários — muitos são competentes e igualmente vítimas do sistema. Trata-se de uma lógica estrutural que premeia a mediocridade e pune a excelência.
Do outro lado está o país que trabalha.
O pequeno empresário que abre a porta às cinco da manhã.
O agricultor que planta sem saber se o preço cobre os custos.
O profissional independente que paga Segurança Social sem proteção no desemprego ou na doença.
O trabalhador por conta de outrem que vê o salário murchar para metade depois de impostos e contribuições.
São estes que carregam o país às costas. E são estes que, quando precisam do Estado, encontram filas de espera, sistemas informáticos obsoletos e uma burocracia que parece desenhada para os fazer desistir.
O dinheiro que sai do bolso de quem produz esvai-se em canais que raramente são escrutinados.
Alimenta parcerias público-privadas ruinosas — as autoestradas vazias cujas rendas pagamos há décadas, os hospitais PPP cujo custo por doente duplica o do SNS tradicional.
Sustenta clientelas partidárias distribuídas por gabinetes, assessorias e conselhos de administração.
Alimenta a teia de subsídios que, em teoria, dinamizariam a economia mas que, na prática, acabam nas mãos dos mesmos grupos de sempre, com porta aberta nos ministérios e linha direta para os decisores políticos.
Isto não é economia de mercado.
É capitalismo de compadrio. E não tem nada que ver com justiça social.
Portugal tem uma das cargas fiscais mais elevadas da Europa sobre o trabalho, mas a contrapartida em serviços públicos de qualidade é uma miragem.
O IRS progressivo esmaga a classe média; os escalões são atualizados a conta-gotas, empurrando mais contribuintes para taxas confiscatórias sobre rendimentos que noutros países seriam modestos.
A Segurança Social tornou-se um imposto sobre o trabalho, com um retorno futuro cada vez mais incerto para os jovens de hoje.
O resultado mais trágico é a hemorragia de talento.
Não são apenas os jovens licenciados que fogem para a Alemanha, o Reino Unido ou a Holanda. São empresários que transferem sedes para jurisdições fiscais mais racionais. Reformados que procuram países onde a pensão não seja tão penalizada.
Profissionais de saúde e tecnologia recrutados por sistemas que valorizam o mérito em vez de o tributarem até à exaustão.
Cada português qualificado que sai representa um investimento público em educação sem retorno e, sobretudo, um voto de desconfiança no projeto coletivo.
Os que ficam enfrentam uma escolha cruel: asfixia fiscal ou economia informal. Quando o Estado se comporta como um sócio maioritário que não investe, não assume riscos e cobra mais de metade do lucro, a fuga aos impostos torna-se, para muitos, uma questão de sobrevivência.
A economia paralela em Portugal, estimada em cerca de um terço do PIB, não é um acidente. É o reflexo de um contrato social quebrado.
Quem paga sente que é roubado.
Quem recebe sente que é enganado.
A cumplicidade de quem se resigna
Seria confortável depositar todas as culpas nas elites. Mas a verdade é mais dura. Um povo que elege corruptos não é apenas vítima.
É cúmplice.
Portugal normalizou o "rouba mas faz".
Esta expressão, entranhada na cultura popular, é o sintoma de uma sociedade que tolera a corrupção como mal menor, desde que o corrupto traga a obra para a terra.
A mesma lógica que leva o cidadão a aceitar o favor, o subsídio, o emprego para o filho em troca do voto. A mesma resignação cínica que desculpa tudo com "são todos iguais".
Esta resignação é o oxigénio da impunidade. A corrupção não se impõe por decreto.
Enraíza-se porque encontra conivência.
A abstenção é a outra face da moeda.
Décadas de eleitores a ficar em casa significam a entrega tácita do destino a quem tem agendas organizadas para comparecer — as clientelas partidárias, os interesses corporativos que se perpetuam.
A democracia portuguesa não está a ser assassinada.
Está a ser lentamente abandonada.
Depois há a anestesia dos subsídios.
O apoio ao gasóleo, o cheque para o passe, o complemento para a renda — tudo pode ter justificação, mas o efeito agregado é uma população cada vez mais dependente e cada vez menos exigente.
Enquanto o Estado for um dispensador de benefícios e não um gestor do bem comum, o cidadão trocará liberdade por migalhas.
As elites políticas, económicas e mediáticas portuguesas operam em bloco.
Não é uma conspiração; é uma convergência de interesses.
O político sai do governo e transita para um cargo numa empresa do sector energético ou bancário. O jornalista que faz perguntas incómodas é afastado dos grandes palcos.
O académico que investiga corrupção encontra dificuldades de financiamento.
As portas giratórias funcionam com uma naturalidade que já nem escandaliza.
E quando surgem casos judiciais que tocam no poder, os processos arrastam-se, prescrevem, perdem-se em expedientes.
A comunicação social, salvo exceções, trata o escândalo como uma maçada. A perceção de que a justiça funciona a duas velocidades — célere para o cidadão comum, lenta para o poderoso — não é populismo. É uma realidade confirmada por relatórios e pela experiência de todos os dias.
Quebrar este ciclo exige um primeiro passo: autoconsciência.
Quem percebe a própria mediocridade já deu um passo para a superar.
Mas é preciso entender que esta mediocridade não está nas pessoas comuns que labutam todos os dias.
Está na aceitação coletiva da incompetência e da desonestidade como se fossem o destino natural do país.
Está no hábito de baixar os braços.
Reconhecer que fomos enganados. Admitir que a nossa passividade alimentou quem vive à custa do trabalho alheio. Assumir a responsabilidade pelas escolhas do passado. Não como culpa paralisante, mas como ato de libertação. O sistema não é uma fatalidade. É uma construção humana.
Pode ser desmontado.
A reconstrução exige o regresso ao essencial. Exige a verdade como valor absoluto, sem paninhos quentes, sem a cumplicidade de quem prefere a paz podre ao conflito das ideias.
Exige tolerância zero com a corrupção — do grande esquema ao pequeno favor.
Exige a defesa intransigente de quem trabalha, produz, arrisca e mantém o país a funcionar apesar do país oficial.
Enquanto permitirmos que a mentira profissional dite as regras, veremos o esforço de quem produz confiscado para alimentar um sistema que premeia o compadrio e pune o mérito.
Veremos os melhores partir e os medíocres perpetuar-se.
Veremos o país ser governado por quem aprendeu a gerir o declínio em vez de construir prosperidade.
E condenaremos as gerações futuras a um país mais pobre, mais cinzento, mais dependente.
A escolha não se faz apenas de quatro em quatro anos.
Faz-se todos os dias.
Na conversa que decidimos ter ou calar. No boato que recusamos espalhar. No abuso que denunciamos. Na exigência que colocamos a quem nos governa, a quem nos informa, a quem nos representa.
Que este texto não seja um lamento. Seja um despertador.
Porque a mediocridade que não é reconhecida torna-se destino.
Mas quando é olhada de frente, começa a tornar-se passado.
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