Segundo a querida amiga, Miss Lolita Von Tease
Em plena pandemia de COVID-19¹, estávamos nós no segundo confinamento, fui convidada a escrever um artigo para o Público, intitulado O Amor nos Tempos da Quarentena². Provavelmente porque ainda não havia Substack e eu ainda não tinha estas Cartas, senti que era preciso trazer para cima da mesa a realidade de quem estava a viver os confinamentos sozinho/a. Nessa altura, também escrevi os Diários de Uma Quarentena no meu velhinho blog, porque acreditanto que o digital seja mais permanente, as gerações futuras vão gostar de perceber como vivíamos e sentíamos a pandemia naquela altura. Senti-o sempre como uma espécie de missão documentar aquilo porque estávamos a passar.
No artigo do Público referia que 23,1 % dos portugueses vivia sozinho em 2021³, tendo este número aumentado para 25,5% em 2024⁴, traduzido para 1.181.500 portugueses em 2025⁵. Estamos a falar de mais de 10% da população portuguesa⁶. Na Europa, no ano passado, 22,5%⁷ da população adulta vivia sozinha ou era mãe/pai singular⁸. Curiosamente - ou não! - o número de homens a viverem sozinhos tem vindo a crescer significativamente face ao número de mulheres a viverem sozinhas. Ainda assim, o número de mulheres sozinhas a viverem com crianças é 5x superior ao dos homens. ⁹
Na altura escrevi:
Viver sozinho/a foi uma emancipação que só o capitalismo nos permitiu e parece ser cada vez mais um luxo que só subsiste com ele.
A ideia continua a ser verdade, especialmente num tempo em que conseguir viver sozinha/o em Portugal é um luxo face à crise de habitação que estamos a viver e, como tal, precisamos de manter viva e alimentar cada vez mais a máquina capitalista, para sustentar essa possibilidade de uma vida sozinha. Como bom fenómeno social que é, esta prevalência da vida unipessoal não cai do céu, nem aparece do nada. Foi a industrialização que nos trouxe este predomínio de lares unipessoais ímpar na História. O gráfico infra mostra-nos isso mesmo.
Podíamos indagar que foi porque a Revolução Industrial obrigou a uma deslocalização sem precedentes - curiosamente o conceito de urbe e cidade aparece também nesta altura -, podíamos afirmar que o surgimento de novas classes sociais permitiu esta possibilidade¹⁰, podíamos achar que as pessoas finalmente perceberam os benefícios de escaparem às expectativas familiares. Seja como for, a verdade é que desde aí, esta foi uma forma de vida que claramente floresceu.
Ainda no artigo do Público escrevi:
E ainda que a solidão seja um dos factores mais prejudiciais ao sistema imunitário, a verdade é que estar sozinho é bem diferente de estar só!
Há uma distinção que importa fazer: solidão não é isolamento. Viver sozinho traz, sem dúvida, novos desafios à ligação social com especial enfoque nos países mais pobres, onde os sistemas de bem-estar social são mais frágeis. Contudo, a ideia de correlação entre solidão e isolamento não passou despercebida à economia, que tem vindo a desenvolver todo um modelo económico assente precisamente nesta questão…
Acho que já por aqui escrevi que A-M-O viajar sozinha. Que normalmente todos os anos faço uma viagem sozinha - habitualmente pela Europa, por questões de segurança - e que essas viagens são uma espécie de renascimento da alma. Acontecem-me coisas que jamais seriam possíveis de acontecer se viajasse com mais alguém. Coisas tão banais como um empregado de um restaurante na Sardenha me dar o número de telemóvel e me convidar para um encontro ou um nigeriano me querer levar num date em Viena, a coisas menos comuns como ser a única europeia num jantar em Israel num final de ano que eles nem celebram, nadar nua no mar numa ilha quase deserta, assistir a um casamento muçulmano na Mesquita Azul ou ainda ir parar de forma totalmente equívoca a uma sauna nudista nos Alpes. Acho que este meu bichinho pelas viagens começou quando fui sozinha de Erasmus em 2003 para a Sicília. Desde aí percebi que adoro estar comigo mesma e passar tempo a conhecer-me.
A única questão aqui é que apesar de sermos cada vez mais pessoas a vivermos e viajarmos sozinhas, o mundo ainda parece estar muito formatado a dois.
Vou-me abster de comentar o facto de tudo à nossa volta nos gritar que estar sozinha/o é um problema e que a imagem de família ideal está bem delimitada. Se duvidam, é só verem os bilhetes família de qualquer museu em Portugal que contemplam 2 adultos 2 duas crianças. O Estado tem uma opinião muito vincada e visível sobre como a família deve ser, independentemente do Partido Político que exerça o poder no Governo. E obviamente que descontruir todo este ideal é uma tarefa hercúlea para muitos anos, porque ser diferente acarreta a sensação de não pertencermos a lado nenhum e reforça a ideia de estarmos e nos sentirmos sozinhos. No fundo, é a chamada pescadinha de rabo na boca!
Se a tudo isso aliarmos os preços proibitivos de vivermos sozinhos, é muito mais fácil estar numa má relação do que procurar uma boa!
Há um filme - O Lagosta - que parte precisamente desta premissa: pessoas solteiras, que são forçadas a encontrar um par romântico em 45 dias sob pena de serem transformadas num animal à sua escolha e serem enviadas para a floresta.
O facto é que pessoas sozinhas ainda são vistas como uma ameaça para os grupos. Pessoalmente sempre senti isso na pele. A minha solitude representa uma possiblidade de se viver de forma diferente, um romper do status quo da díade ou tríade, uma recusa à conformidade do socialmente suposto e aceite. E representa tão bem, que durante muito tempo eu agarrei-me a ela como se fosse parte da minha própria identidade. Há uma certa libertação, ainda que seja muito ilusória, em sentirmos que não precisamos dos outros para fazermos aquilo que queremos e gostamos e essa sensação de controlo pode ser viciante. Simultaneamente temos assistido ao reforçado da premissa de que temos de estar bem connosco mesmas/os e precisar de alguém ou de uma relação é sinal de fraqueza e por isso estar sozinho/a é uma fórmula muito ianque de empoderamento. Deus@ nos livre da interdependência, esse demónio só comparável ao capitalismo para os comunistas! E este novo modelo económico parece ter captado isso na perfeição…
Este mês fui dar uma formação sobre Transformação Digital a um grande grupo de empresas no sector alimentar e andei à procura de estudos de caso e exemplos de transformações do modelo económico neste setor e por entre a análise de vários exemplos - Uber, Quico, Zu, To Good To Go, Airbnb, Tinder, Timeleft, you name it! - percebi que a economia está cada vez mais a desenvolver novos produtos e serviços que reforçam esta ideia da economia da solidão.
A economia da solidão refere-se ao mercado em expansão de bens e serviços de consumo concebidos para substituir a ligação humana e simular a conexão, estimando-se que represente 500 biliões de dólares.
Há quem diga que se já pegámos no telemóvel para preencher o vazio das 20h de uma sexta-feira, já entrámos na economia da solidão sem percebermos que estamos a ser os consumidores nessa cadeia¹¹. Há toda uma nova gama de produtos - redes sociais, apps de dating, serviços de entregas, coworks, jantares de desconhecidos, chatbots de IA, etc. - que vieram para preencher o vazio existencial, que é só das coisas mais humanas que temos. Não foi a economia da solidão que provocou o nosso distanciamento, isso veio das horas infindáveis que dedicamos ao trabalho, das mudanças de cidade ou país por causa da nossa carreira, da otimização da nossa agenda para estarmos em todos os lugares que importam, da obrigação perversa do trabalho presencial e do progressivo esvaziamento dos terceiros lugares: a paróquia, o sindicato, o grupo de jovens, o voluntariado, os ranchos, os coros, entre outros, agravado por uma pandemia que nos deixou em isolamento. A economia da solidão veio apenas preencher uma ferida que já existia e que se esvaiu durante os confinamentos.
Ao contrário da explicação simplista que atribui à tecnologia a responsabilidade desta situação, eu não acho que a culpada seja ela. O problema reside nos produtos que tratam a solidão como modelos de subscrição - condição inerente ao conceito da Transformação Digital - e criam dependência, em vez de se focarem na resolução do problema: a reconstrução do sentido de pertença que nenhuma app vai resolver e onde o isolamento tem de ser uma flaw e não uma feature.
A verdade é que a economia da solidão não aconteceu por causa da digitalização, nem da pandemia ou dos confinamentos. Aconteceu porque fomos fazendo centenas ou milhares de pequenas escolhas que reduziram a vida comunitária ao essencial, invisivelmente contribuindo para um modelo económico que vê a solidão humana como um mercado em expansão. Ainda assim, não podemos esquecer que a internet abriu muitas portas para o encontro de diferentes e diversas comunidades. A tecnologia sempre foi um espelho daquilo que precisamos. O que a economia da solidão fez foi confundir o reflexo com a imagem em si. E tem vindo a prosperar porque é fácil de comercializar, fácil de vender e extremamente conveniente para um tipo de sistema social que prefere que nos sintamos sozinhos a que nos organizemos juntos. É inegável e infinitamente mais fácil e indolor comprar essa conexão - feita à nossa medida - do que construí-la ao longo do tempo.
Não é a tecnologia que é o problema, é a intencionalidade com que a desenvolvemos ou utilizamos que nos remete para esta questão da economia da solidão.
Tornámo-nos estupendamente melhores a transmitir a nossa vida em direto nas redes sociais e silenciosamente piores a partilhá-la de verdade. Porque, na verdade, é a solidão que nos mantém online. A fazer compras de roupas que muitas vezes nem teremos oportunidade de usar e acabarão novas a ser vendidas na Vinted. A pagar pela entrega de uma refeição porque ninguém gosta de se sentar a comer sozinho num restaurante e os restaurantes odeiam secretamente pessoas solitárias que vão gastar pouco em vez de mesas cheias com várias pessoas com uma fatura maior. A gastar dinheiro na esperança de uma batida do coração do outro lado do ecrã que finalmente nos dê motivos para vestir a tal roupa e ir jantar e ocupar uma mesa de 2 com propriedade.
O que a economia da solidão nos vende são necessidades humanas básicas rotuladas como categorias de produto. E uma miragem da pertença que funciona porque é plausível e conveniente o suficiente para comprarmos o produto e provocar um alívio temporário, na justa medida em que nos permite sentirmo-nos vistas/os sem a obrigação, o esforço ou o desconforto de termos de lidar com o que isso acarreta no longo prazo. Se for demasiado difícil, passamos ao próximo match, mudamos de cowork, encomendamos noutra sítio, instalamos outra app, abandonamos o animal, fazemos mais uma viagem, vamos a mais um jantar com novos desconhecidos ou a outro retiro de Ayahuasca ou publicamos mais umas fotos no Instagram!¹²
Contra mim falo porque não sou isenta de nenhum destes pecados! Se alguma coisa eles dizem de nós é que somos profundamnete humanos e precisamos desesperadamente de conexão, ainda que possamos ser bastante imaturos na forma como a procuramos e estamos dispostos a mantê-la, preferindo a sua compra à sua criação.
Vivemos num tempo e num sistema onde a sensação de solidão é tão comum e habitual que a solução foi transformá-la numa marca comercializada e distribuída em larga escala como qualquer outra mercadoria.
Esta semana vi uma miúda a pedir boleia aqui no Porto perto da Rotunda do Bessa. Infelizmente virei na rua antes de me cruzar com ela. De qualquer forma ela ia para Aveiro e eu não ia sair do Porto, mas não pude deixar de sorrir e ficar genuinamente feliz por ainda ver isto acontecer. Aquela desconhecida a pedir boleia no Porto (re)lembrou-me que ainda é possível lutar contra esta economia da solidão.
Assim como a solidão é também política, seja nas linhas de autocarro que desaparecem e impedem as pessoa idosas de se deslocarem a certos lugares, nos bancos de jardim que impedem conforto para uma conversa longa com a desculpa dos sem-abrigo¹³, no parque que impede que nos sentemos na relva a fazer piqueniques e a conviver sob a desculpa da limpeza, ou nos supermercados e centros comerciais que não param ao fim de semana e impedem que as famílias e amigos se reúnam em conjunto, o remédio para a solidão também o é!
Participar num clube do livro silencioso ou ruidoso, ir à missa ou ao culto, pedir boleia, meter conversa com um desconhecido no parque ou na fila do supermercado, jogar futebol num clube amador, oferecer um workshop de macramé, ir a um baile da tango ao sábado à noite, fazer voluntariado com crianças, frequentar espaços associativos, encontrar um grupo de corrida, participar num grupo comunitário, ser escu/oteiro, frequentar a biblioteca municipal, ir a um FabLab arranjar um eletrodoméstico, jogar Catan numa associação, usar o TaxiLink ou o serviço de entregas do nosso restaurante preferido, albergar um jantar comunitário num jardim, ter uma parcela na horta comunitária da freguesia, pedir a um amigo que nos apresente alguém que não conhecemos, comprar fruta numa cooperativa, oferecer um bolo ao vizinho do lado ou chocolates no Natal, telefonar em vez de ficar a mandar mensagens no Whatspap ou IG, participar numa marcha relevante para nós, afiliarmo-nos num partido político, tomar conta do gato da vizinha de baixo, convidar alguém que gostamos de ler no Substack para um café. Tudo pequenos gestos de resistência. Gestos quotidianos que tornam mais fácil encontrarmo-nos uns aos outros e recusam a ideia de que a conexão existe enquanto commodity ou bem de luxo.
Estar sozinha/a connosco mesmas/os pode ser uma escolha, perfeitamente legítima como estar com amigas e amigos. Mas a solidão não é sinónimo de isolamento involuntário ou dificuldade em aceitar a interdependência. Desde que tenhamos uma comunidade de onde nos podemos afastar quando precisamos da nossa solidão e regressar quando temos vontade de conviver, temos escolha. E é preciso manter essa escolha ou criar as condições para que ela possa existir.
O antídoto para a solidão não é uma melhor inteligência artificial ou uma realidade virtual mais sofisticada, mas antes experiências radicais de convivência real, imperfeita e desorganizada. É dizer sim a um convite mesmo quando seria mais fácil ficar no sofá a scrollar pelas redes ou a fazer binge watching de mais uma série qualquer. É preocuparmo-nos com a estrutura invisível que possibilita que as pessoas se encontrem, permaneçam juntas e criem raízes. É recusarmos conscientemente espaços, lugares, condições, aplicações e modelos que impeçam ou dificultem a criação de condições reais para que as relações saudáveis e a conexão humana fluam e prosperem.
A solidão é um assunto que precisa mesmo de ser levado a sério, quanto mais não seja porque 1 em 5 adultos indicou sentir-se bastante só e há uma correlação positiva entre este sentimento e outras emoções de dor física, preocupação, tristeza, stress e raiva¹⁴. Importa também pelo seu impacto e custo no sistema social - entre 2 e 25 biliões de dólares por ano¹⁵ - mas, principalmente, porque é um sinal de alerta social para o sofrimento que cada vez mais pessoas enfrentam, estimando-se que morram 871.000 pessoas anualmente de forma prematura por questões de solidão¹⁶. Além de que é um fator que está também associado a um desempenho profissional inferior, a uma maior probabilidade de desemprego ou de abandono escolar precoce e pode inclusivamente influenciar o comportamento eleitoral.
A solidão não é uma falha individual. É antes uma consequência estrutural de um estilo de vida e de uma característica que nos fez chegar aqui: a conexão. A resposta tem de passar inevitavelmente pela construção de uma rede social e sociedade que torne a ligação real mais fácil do que a falsa e pela ciração e uso de tecnologia que não monetize esta nossa necessidade.
Um abraço Soli(t/d)ário¹⁷.
Miss Lolita Von Tease

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