sexta-feira, 27 de julho de 2012

O (DES)ACORDO ORTOGRÁFICO
















"Tem-se falado muito do Acordo Ortográfico e da necessidade de a língua evoluir no sentido da simplificação, eliminando letras desnecessárias e acompanhando a forma como as pessoas realmente falam. Sempre combati o dito Acordo mas, pensando bem, até começo a pensar que este peca por defeito. Acho que toda a escrita deveria ser repensada, tornando-a mais moderna, mais simples, mais fácil de aprender pelos estrangeiros.

Comecemos pelas consoantes mudas: deviam ser todas eliminadas. É um fato que não se pronunciam. Se não se pronunciam, porque ão-de escrever-se? O que estão lá a fazer? Aliás, o qe estão lá a fazer? Defendo qe todas as letras qe não se pronunciam devem ser, pura e simplesmente, eliminadas da escrita já qe não existem na oralidade.

Outra complicação decorre da leitura igual qe se faz de letras diferentes e das leituras diferentes qe pode ter a mesma letra. Porqe é qe “assunção” se escreve com “ç” e “ascensão” se escreve com “s”? Seria muito mais fácil para as nossas crianças atribuír um som único a cada letra até porqe, quando aprendem o alfabeto, lhes atribuem um único nome. Além disso, os teclados portugueses deixariam de ser diferentes se eliminássemos liminarmente o “ç”. Por isso, proponho qe o próximo acordo ortográfico elimine o “ç” e o substitua por um simples “s” o qual passaria a ter um único som. Como consequência, também os “ss” deixariam de ser nesesários já qe um “s” se pasará a ler sempre e apenas “s”.

Esta é uma enorme simplificasão com amplas consequências económicas, designadamente ao nível da redusão do número de carateres a uzar. Claro, “uzar”, é isso mesmo, se o “s” pasar a ter sempre o som de “s” o som “z” pasará a ser sempre reprezentado por um “z” . Simples não é? se o som é “s”, escreve-se sempre com s. Se o som é “z” escreve-se sempre com “z”. Quanto ao “c” (que se diz “cê” mas qe, na maior parte dos casos, tem valor de “q”) pode, com vantagem, ser substituído pelo “q”. Sou patriota e defendo a língua portugueza, não qonqordo qom a introdusão de letras estrangeiras. Nada de “k”. Ponha um q.

Não pensem qe me esqesi do som “ch”. O som “ch” será reprezentado pela letra “x”. Alguém dix “csix” para dezinar o “x”? Ninguém, pois não ? O “x” xama-se “xis”. Poix é iso mexmo qe fiqa. Qomo podem ver, já eliminámox o “c”, o “h”, o “p” e o “u” inúteix, a tripla leitura da letra “s” e também a tripla leitura da letra “x”. Reparem qomo, gradualmente, a exqrita se torna menox eqívoca, maix fluida, maix qursiva, maix expontânea, maix simplex. Não, não leiam “simpléqs”, leiam simplex. O som “qs” pasa a ser exqrito “qs” u qe é muito maix qonforme à leitura natural.

No entanto, ax mudansax na ortografia podem ainda ir maix longe, melhorar qonsideravelmente. Vejamox o qaso do som “j”. Umax vezex excrevemox exte som qom “j” outrax vezex qom “g”- ixtu é lójiqu? Para qê qomplicar?!? Se uzarmox sempre o “j” para o som “j” não presizamox do “u” a segir à letra “g” poix exta terá, sempre, o som “g” e nunqa o som “j”. Serto? Maix uma letra muda qe eliminamox.

É impresionante a quantidade de ambivalênsiax e de letras inuteix qe a língua portugesa tem! Uma língua qe tem pretensõex a ser a qinta língua maix falada do planeta, qomo pode impôr-se qom tantax qompliqasõex? Qomo pode expalhar-se pelo mundo, qomo póde tornar-se realmente impurtante se não aqompanha a evolusão natural da oralidade?

Outro problema é o dox asentox. Ox asentox só qompliqam! Se qada vogal tiver sempre o mexmo som, ox asentox tornam-se dexnesesáriox. A qextão a qoloqar é: á alternativa? Se não ouver alternativa, pasiênsia. É o qazo da letra “a”. Umax vezex lê-se “á”, aberto, outrax vezex lê-se “â”, fexado. Nada a fazer. Max, em outrox qazos, á alternativax. Vejamox o “o”: umax vezex lê-se “ó”, outrax lê-se “u” e outrax, lê-se “ô”. Seria tão maix fásil se aqabásemox qom isso! qe é qe temux o “u”? Se u som “u” pasar a ser sempre reprezentado pela letra “u” fiqa tudo tão maix fásil!

Pur seu lado, u “o” pasa a suar sempre “ó”, tornandu até dexnesesáriu u asentu. Já nu qazu da letra “e”, também pudemux fazer alguma qoiza: quandu soa “é”, abertu, pudemux usar u “e”. U mexmu para u som “ê”. Max quandu u “e” se lê “i”, deverá ser subxtituídu pelu “i” . I naqelex qazux em qe u “e” se lê “â” deve ser subxtituidu pelu “a”. Sempre. Simplex i sem qompliqasõex.

Pudemux ainda melhurar maix alguma qoiza: eliminamux u “til” subxtituindu, nus ditongux, “ão” pur “aum”, “ães” – ou melhor “ãix” - pur “ainx” i “õix” pur “oinx”. Ixtu até satixfax aqeles xatux purixtax da língua qe goxtaum tantu de arqaíxmux.

Pensu qe ainda puderiamux prupor maix algumax melhuriax max parese-me qe exte breve ezersísiu já e sufisiente para todux perseberem qomu a simplifiqasaum i a aprosimasaum da ortografia à oralidade so pode trazer vantajainx qompetitivax para a língua purtugeza i para a sua aixpansaum nu mundu.

Será qe algum dia xegaremux a exta perfaisaum?"

A DOR DO PACIENTE ESPANHOL























Segundo Nuno Dias da Silva (Civilização do Espectáculo), as revistas bem informadas e especializadas em fazer lóbi, normalmente não falham. O que a «Der Spiegel» e a «The Economist» publicam, quase sempre tem forte possibilidade de acontecer. Na edição de hoje, mais um artiguinho sobre o inevitável resgate total da Espanha. A capa é eloquente, como a imagem documenta. No interior à peça é dado o nome de «O paciente espanhol». Palavras para quê?

quarta-feira, 25 de julho de 2012

É A FALTA DE CULTURA, ESTÚPIDO












Crónica de Clara Ferreira Alves publicada na última edição do Expresso .

"É a falta de cultura, estúpido!

Portugal tem hoje uma pequeníssima elite que consome cultura, quase toda velha e sem sucessores.

... Nós merecemos isto. Nós elegemos esta gente. Nós não somos muito diferentes disto. No meio do anedotário que converteria um homem mais inteligente num homem trágico, convém não esquecer o que nos separa, exatamente, do Relvas. Pouco. O dito não é um espécime isolado, um pob...re diabo animado de força e disposição para fazer negócios e trepar na vida, que entrou em associações e cambalachos, comprou um curso superior e, de um modo geral, se autoinstituiu em conselheiro do rei. Já vimos isto.

Nunca vimos isto nesta escala, porque na 25ª hora da tragédia nacional, quando Portugal se confronta com a humilhação da venda dos bens preciosos (os famosos ativos) aos colonizados de antanho e seus amigos chineses, o que o país tem para mostrar como elite é pouco. Nada distingue hoje a burguesia do proletariado. Consomem as mesmas revistas do coração, lêem a mesma má literatura (que passa por literatura), vêem a mesma televisão, comovem-se com as mesmas distrações. Uns são ricos, outros pobres.

A elite portuguesa nunca foi estelar, e entre a expulsão dos judeus e a perseguição aos jesuítas, dispersámos a inteligência e adotámos uma apatia interrompida por acasos históricos que geraram alguns estrangeirados ou exilados cultos permanentemente amargos e desesperados com a pátria (Eça, Sena) e alguns heróis isolados ou desconhecidos (Pessoa, 0'Neill).

Em "Memorial do Convento", Saramago dá-nos um retrato da estupidez dos reis mas exalta romanticamente o povo. Todos os artistas comunistas o fizeram, num tempo em que o partido comunista tinha uma elite intelectual e de resistência inspirada por um chefe que, aos 80 anos, quase cego, resolveu traduzir Shakespeare. Cunhal traduzindo o "Rei Lear" de um lado, Relvas posando nas fotografias ao lado da bandeira do outro. Relvas nem personagem de Lobo Antunes, o (descritor da tristeza pós-colonial, chega a ser. É um subproduto de telenovela O tempo dos chefes cultos acabou, e se serve de consolação, não acabou apenas em Portugal.

A cultura de massas ganhou. No mundo pop, multimédia, inculto e narcisista, em que cada estúpido é o busto de si mesmo, a burguesia e o lúmpen distinguem-se na capacidade de fazer dinheiro. Acumular capital. O dinheiro, as discussões em volta do dinheiro acentuadas pela falta de dinheiro, fizeram do proletariado (e desse híbrido chamado classe média) uma massa informe de consumidores que votam. E que consomem democracia, os direitos fundamentais, como consomem televisão, pela imagem. Sócrates e o Armani, Passos Coelho e a voz de festival da canção. Nós, e quando digo nós digo o jornalismo na sua decadência e euforia suicidaria, criámos estas criaturas. Os Relvas, os Seguros, os Passos Coelhos, os amigos deles.

O jornalismo, aterrorizado com a ideia de que a cultura é pesada e de que o mundo tem de ser leve, nivelou a inteligência e a memória pelo mais baixo denominador comum, na esteira das televisões generalistas. Nasceu o avatar da cultura de massas que dá pelo nome de light culfure em oposição à destrinça entre high e low. O artista trabalha para o 'mercado', tal como o jornalista, sujeito ao raring das audiências e dos comentários online.

A brigada iletrada, como lhe chama Martin Amis, venceu. Estão admirados? John Carlin, o sul-africano autor do livro que foi adaptado ao cinema por Clint Eastwood, "Invictus", conta que Nelson Mandela e os homens do ANC, na prisão, discutiam acaloradamente, apaixonadamente, Shakespeare. Foram "Júlio César" ou "Macbeth", "Hamlet" ou "Ricardo III" que os acompanharam. Não é um preciosismo. A literatura, o poder das palavras para descrever e incluir o mundo num sistema coerente de pensamento, é, como a filosofia e a história, tão importante como a física ou a álgebra. A grande mostra da Grã-Bretanha nos Jogos Olímpicos é Shakespeare (no British Museum) e não um dono de supermercados ou futebolista.

Os 'heróis' portugueses descrevem-nos. E descrevem a nossa ignorância Passos Coelho é fotografado à entrada do La Féria ou do casino. Um dono de supermercados ou um esperto ministro reformado são os reservatórios do pensamento nacional. Uma artista plástica é incensada não pela obra mas pela capacidade de "agradar ao mercado", transformando-se, pela manifesta ausência de candidatos, em artista oficial do regime. É assim.

Não teria de ser assim. Portugal tem hoje uma pequeníssima elite que consome cultura quase toda velha e sem sucessores. Não estamos sós. Por esse mundo fora, a arte tornou-se cópia e reprodução (daí a predominância dos grandes copiadores de coisas, os chineses), tornou-se matéria tornou-se consumo. Como bem disse Vargas Iiosa, em vez de discutirmos ideias discutimos comida. A gastronomia é uma nova filosofia. Ferran Adriá é o sucessor de Cervantes e de Ortega Y Gasset."

CFA

sexta-feira, 20 de julho de 2012

MORREU O PROF. JOSÉ HERMANO SARAIVA













Acabei de ler a notícia da morte do eminente homem de estado, homem de cultura e grande comunicador que foi JOSÉ HERMANO SARAIVA.

Aqui fica, como sentida homenagem, o meu 1.º "post" no Lusitaneaexpresso em 30 de Março de 2009.

http://lusitaneaexpresso.blogspot.pt/2009/03/carta-aberta-ao-prof-jose-hermano.html

segunda-feira, 16 de julho de 2012

O DIREITO À INDIGNAÇÃO

O verdadeiro "Estado da Nação" traduz-se, por ex.º, nas palavras do ex Vice-Presidente da CM do Porto, que com uma frontalidade pouco comum na nossa terra, desmonta toda a farsa em que assenta esta "plutocracia", que nós portugueses, mais voto menos voto, ajudamos a instalar.

Vejamos aqui o "estado da arte":

A história à partida não se repete nem no tempo nem no modo, mas a indignação e revolta que deu origem, por ex.º à tomada da Bastilha em França, deu origem para lá da grande mudança civilizacional que determinou o rumo da história, à decapitação da elite do poder autocrático dominante. 
Oxalá que por estes dias em Portugal,  não aconteça algo inusitado, decorrente da consciencialização crescente da população, apesar dos chamados "brandos costumes" dos portugueses. 

Atente-se que nos últimos tempos, qualquer detentor de cargo político relevante, quando aparece em actos públicos é vaiado veementemente pela população. Isto é só o princípio ..... O que tiver de acontecer, pois que aconteça sem danos de maior. 
A "paz podre" não se pode eternizar, sob o risco de vivermos tempos de mais infortúnio e desesperança, quando as soluções cercearem os direitos ditos fundamentais, entre outros.

A. João Saltão

sexta-feira, 13 de julho de 2012

PÉ DE GUERRA

Momento naif do dia, segundo o meu amigo Nuno Bettencourt.
Pé de guerra

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Portugal em pé de guerra com a Europa,
... Espanha em pé de guerra com os políticos,
Norte em pé de guerra com o Sul,
Médicos em pé de guerra com o governo,
Governo em pé de guerra com os desempregados.

Tu em pé de guerra contigo mesmo.

O pé em guerra com as pernas,
Sem poder fazer nada.

Governo em pé de guerra com os desempregados.
Sem poderem fazer nada.

Médicos em pé de guerra com o governo,
Sem poderem fazer nada.

Norte em pé de guerra com o Sul,
Sem poderem fazer nada.

Espanha em pé de guerra com os políticos,
Sem poderem fazer nada.

Portugal em pé de guerra com a Europa,
Sem poder fazer nada.

Tu em pé de guerra contigo mesmo.
Sem poderes fazer nada.

Sem poder fazer nada,
Já mudei tanta coisa,
Já parei tanta guerra.

Sem poder fazer nada,
Sozinho posso mudar tudo.

quinta-feira, 5 de julho de 2012

CONTA-ME COMO FOI
















Antigamente os portugueses eram pobres. Com excepção das famosas 60 famílias da propaganda comunista, com os Mello, os Champalimaud e os Espírito Santo à cabeça, quatro quintos dos portugueses eram pobres. O quinto que sobrava era constituído por gente remediada: médicos, advogados, engenheiros e magistrados em início de carreira, professores, quadros médios da administração pública, gerentes bancários, oficiais subalternos do exército, comerciantes, etc. Uns eram mais remediados do que outros: barões da medicina, da advocacia e da engenharia, juízes do Supremo, catedráticos, próceres do Estado, administradores dos grandes grupos económicos, generais e almirantes. A classe média subsumia esta gente.
Pouquíssimos portugueses tinham automóvel (ou mesmo frigorífico), férias no estrangeiro eram uma miragem, e o acesso ao ensino superior estava reservado aos filhos das classes altas e a alunos brilhantes que obtinham bolsas de estudo: Ernâni Lopes, filho de um alfaiate, é um bom exemplo.
Depois de 1970, a classe média integrou os empregados bancários, muito bem pagos por comparação com outras profissões.
A seguir veio a Revolução.
Camelot ficava na margem esquerda, nos estaleiros navais da Margueira. Qualquer professor de liceu, mesmo se davam pelo nome de Rómulo de Carvalho (i.e., o poeta António Gedeão), Matilde Rosa Araújo, Vergílio Ferreira ou Mário Dionísio, ganhava menos que um operário da Lisnave, sem contar com o facto de os contratos colectivos de trabalho da indústria fazerem dos funcionários públicos os novos proletários.
Dez anos depois da Revolução pouca coisa mudara. Metade das pessoas que tinham carro só o usava aos fins-de-semana. A classe média tout court não ia a restaurantes de luxo. Viajar era caro porque um dólar americano valia (em 1984) qualquer coisa como 90 escudos. Comprar caramelos em Badajoz era tão excitante como ir hoje ao Dubai.
De repente, a Europa e os juros baixos viraram Portugal do avesso.
O crédito à habitação, um estratagema congeminado para absorver o meio milhão de retornados das antigas Colónias (e, mesmo assim, com regras difíceis de ultrapassar), foi sucessivamente alargando o seu âmbito. No fim de 2010, ainda os bancos emprestavam 110% do valor da casa, a pagar em catorze prestações anuais. Outros metiam carro no pacote. E muitos garantiam uma verba suplementar para “recheio”. Não era por acaso que Lisboa tinha uma loja de sofás importados em cada esquina. (Estão a fechar à velocidade da luz.) As agências de eventos não tinham mãos a medir. Tirando os excêntricos, nenhum aluno do “superior” usava transportes públicos. As universidades oferecem 900 cursos, dos quais o mercado reconhece 10. Centenas de milhares de portugueses fizeram férias em Cuba, na República Dominicana, no Brasil e na Tailândia. As companhias low cost puseram gente improvável a voar várias vezes ao ano. O cabeleireiro mais obscuro senta os clientes em cadeiras de design italiano. Restaurantes fashion cobram 50 euros por gororobas sem nome.
E, de repente, somos pobres.
Por efeito do corte dos subsídios de férias e Natal, funcionários públicos e pensionistas vêem o seu rendimento anual bruto diminuir 15%. Portugal tem hoje uma taxa de desemprego alarmante: 15,3% da população activa, a terceira maior da Europa, logo atrás de Espanha e da Grécia. Somando as pessoas que não estão inscritas nos centros de emprego, o índice é superior a 18%. A percentagem de jovens (os que têm menos de 24 anos) atinge 36% do total. Só no primeiro trimestre de 2012, duas mil e trezentas casas foram devolvidas aos bancos. O garrote fiscal aperta. A emigração está muito perto dos valores de 1960.
Who cares?
Por Eduardo Pitta em:
http://daliteratura.blogspot.pt/search/label/Nova%20LER