sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Morreu o "Senhor do Adeus"










Senhor do Adeus' fez agora a sua despedida a Lisboa

Durante uma década, João Manuel Serra acenou e sorriu a quem por ele passava, do Restelo ao Saldanha. Centenas de anónimos retribuíram o gesto com mensagens na Internet

"Sinto-me só. Incompleto. Como se algo estivesse a falhar." Para combater esta solidão, confessada ao DN em 2003, decidiu escolher, numa alusão ao fado (uma das suas paixões), uma "estranha forma de vida". Dizer adeus aos carros que por ele passavam na zona do Saldanha e ao longo de toda a Fontes Pereira de Melo foi a missão a que se dedicou nos últimos dez anos João Manuel Serra, ou melhor, o "Senhor do Adeus". Essa função, que exercia sempre acompanhada de um sorriso, cessou na quarta-feira com a sua morte aos 79 anos.

Com o desaparecimento deste ex libris de Lisboa, a solidão parece ter sido transferida para os inúmeros anónimos e alguns conhecidos que diariamente se cruzavam com o senhor a quem agora são forçados a retribuir o derradeiro "adeus". "Estão a dar-me uma notícia muito triste. Foi uma pessoa boa que se perdeu. E esta zona de Lisboa perde parte da alma, sem o seu sorriso e a sua saudação." De queixo caído, Olinda Serrano reage assim quando a equipa de reportagem do DN lhe comunica que o "Senhor do Adeus" morreu.

"Ainda a semana passada o vi. Gostava muito dele. Já este ano lhe dei castanhas, como no Verão lhe oferecia gelados", conta Olinda, enquanto remexe no assador as castanhas que neste São Martinho não pôde oferecer ao seu "amigo". Enquanto avia os clientes, Olinda, visivelmente transtornada, liga ao marido para dar a má notícia.

Notícia essa que já se disseminou pelo mundo real e virtual. O "Senhor do Adeus" recebeu mais de uma centena de homenagens através de um blog e do Facebook. No blog Senhor do Adeus (senhordoadeus.blogs.sapo.pt) foram escritos, até à hora de fecho desta edição, mais de uma centena de comentários ao texto que anunciou a sua morte. O mesmo sucedeu no Facebook, usado para chamar as pessoas aos locais por onde João Manuel Serra passava todas as noites - os encontros começaram no Restelo, terminando no Saldanha.

Em ambos os sítios, o "Senhor do Adeus" comparecia diariamente com o seu ar aristocrático (fato, óculos de massa negra e gel no cabelo) que lhe veio do berço, já que era proveniente de famílias abastadas. "Fui criado numa redoma de vidro", confessou há sete anos ao DN, altura em que admitiu também ter abandonado o curso de Direito e de Histórico-Filosóficas porque "era muito chato".

Amante de viagens e filho de pais separados, viveu a maior parte da sua vida com a mãe, com quem percorreu uma boa parte do mundo. Mundo esse que desabou quando a sua progenitora morreu. Perdido, João Manuel Serra "vestiu a roupa de "Senhor do Adeus".

Foi talvez a forma de João abraçar o teatro, mais uma das suas paixões. Outra era o cinema. Todos os domingos, o ritual era sagrado: ia com dois amigos, que conheceu através dos afáveis sorrisos e adeus, ver filmes ao El Corte Inglés ou ao Monumental. A última fita a que assistiu foi A Rede Social, de David Fincher, no domingo passado. Desta vez foi só com o Filipe Melo, de 33 anos e músico de jazz e realizador, porque o seu outro amigo, Tiago Carvalho de 30 e poucos anos, não podia.

Ao DN, Filipe Melo não quis falar muito sobre o amigo nem do seu modo de vida porque "a missão dele é muito difícil de explicar, mas muito fácil de entender". Resumiu dizendo apenas que era "um símbolo de humanidade".

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

O MONSTRO


















Segundo o "Ionline" de hoje, 18-10-20010, o orçamento geral do Estado
alimenta directamente 340 fundações de mão-pública, 379 institutos públicos, 537 empresas municipais e mil sociedades empresariais do Estado

Portugal concentra actualmente 14 mil entidades públicas e parcerias público-privadas que se alimentam directamente do Orçamento Geral do Estado. Entre estas, contam-se 340 fundações de mão-pública, 379 institutos públicos, 537 empresas municipais e mil sociedades empresariais do Estado que não geram receita para pagamento da despesa. Esta é uma das conclusões de um estudo encomendado pela Comissão Europeia no âmbito do Ano Europeu do Combate à Pobreza e exclusão Social e que foi realizado pelo Centro de Estatística da Associação Nacional de Pequenas e Médias Empresas (ANPME) e pela Universidade Fernando Pessoa. Mas para além dos problemas, o estudo também aponta soluções. Desde logo a eliminação urgente de cinco mil organismos públicos (fundações, institutos, empresas municipais, sociedades empresariais do Estado e as parcerias público-privadas). Depois, a redução do número de ministérios e secretários de Estado e cortes orçamentais na despesa corrente, seja nas viaturas, nas viagens, nas refeições ou nas festas públicas.

Augusto Morais, presidente da ANPME, adiantou ao i que "muitas destas organizações de mão-pública vivem e sobrevivem à custa de subsídios públicos. Não dão lucro nenhum, mas servem para a impermeabilidade política", disse, sustentando ainda tratar-se de organizações que, a maior parte das vezes, acabam "dirigidas por políticos que muitas vezes saem do Governo com o salário de secretário de Estado ou de ministro e que depois são direccionados para gerir estas instituições públicas". Quem vai acabar com isso, parece ser a pergunta imediata. Augusto Morais diz ao i que já ouviu muitas soluções, mas ninguém diz ao certo quais as instituições que devem ser extintas. "Talvez porque são dirigidas por políticos de um partido e por políticos de outro e ainda têm charneiras de todos", conclui.

Dito isto, facilmente se conclui que a tímida restruturação/fusão de 50 organismos do Estado, anunciada em sede de orçamento para 2011, constitui um salpico no "monstro" assim definido por Cavaco Silva há anos, sendo também ele co-responsável, à época, pelo crescimento do mesmo.

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

CONTRIBUTOS PARA REDESENHAR O “ESTADO” DA ARTE

Por estes tempos de Outono gris, ao ouvir os discursos dos (i)responsáveis políticos e seus apaniguados no poder e fora dele, ocorre-me que seria espectável que estes senhores, num acto de responsabilidade, no mínimo, justificassem perante o país, onde e como gastaram o dinheiro dos contribuintes, de que resultou um aumento descarado da despesa corrente do Estado ao longo do ano de 2010.

Com as últimas medidas anunciadas pelo Governo, resultando ou não num Orçamento de Estado viabilizado pelo Parlamento, tudo pode acontecer.

Independentemente dos apelos da oposição, solicitando colaborações avulsas dos cidadãos, no sentido de elencar propostas a serem eventualmente apresentadas no Parlamento em sede de discussão do OE, apresento aqui um conjunto de medidas despretensiosas, que penso serem oportunas para o equilíbrio das contas públicas, a saber:

- não aumentar nem mais um imposto;
- diminuir e/ou extinguir organizações do Sector Empresarial do Estado (Central e Local), onde se verifiquem exercícios sucessivos deficitários;
- refundir/extinguir os Institutos Públicos nas Direcções-Gerais donde emergiram;
- tributar os lucros dos Bancos na mesma percentagem aplicada ao IRC das PME’s e todas as mais-valias de capitais e dos off-shores;
- aumentar investimentos na manutenção de todas as infra-estruturas e equipamentos públicos já existentes, os quais, devidamente reabilitados, poderão ainda revelar-se bastante úteis: Escolas/Universidades, caminhos de ferro, frota pesqueira, barragens (regadio e consumo), pontes antigas, estradas do interior (não necessariamente auto-estradas), centros de saúde, etc.
- reduzir a orgânica/aparelho do Governo, por forma a contemplar menos Ministérios e Secretarias de Estado e, por consequência, menos adjuntos, menos assessores, menos secretárias/motoristas, que em muitas situações, recebem horas extraordinárias a título permanente;
- promover o incremento da agricultura nas culturas e pecuária tradicionais de Portugal, nomeadamente azeite, frutas, cereais, lacticínios etc. de modo a tendermos para a auto-suficiência em alimentação e reduzir as importações de bens alimentares;
- acabar, sem excepção, a acumulação de pensões de reforma com ordenados do exercício de cargos públicos, incluindo o Presidente da República - os exemplos vêm de cima;
- baixar/moralizar os ordenados milionários dos gestores públicos, de acordo com o que já se encontra consagrado na lei: nenhum detentor daqueles cargos deverá receber acima do vencimento do PR;
- não permitir que os aposentados das Forças Armadas, GNR, PSP assim como outros funcionários aposentados voltem a trabalhar nos organismos públicos, como prestadores de serviços/consultores;
- nomear pelo Ministro das Finanças todos os Secretários-Gerais dos Ministérios ou Controladores da Despesa Pública, desde que apresentem competências e qualificações profissionais com efectiva experiência demonstrada em funções de auditoria/controlo/fiscalização de FINANÇAS PÚBLICAS. Esta medida visa a supressão gradual de recrutamento de auditores/consultores de empresas, que nem sempre detém competências em gestão pública;

João Saltão

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Por ocasião dos 40 anos da morte de Salazar





Há dias, ao visitar o blogue do João Gonçalves - Portugal dos Pequeninos em http://portugaldospequeninos.blogspot.com/2010/07/40-anos-sem-salazar_27.html, propus a um grande amigo a leitura de alguns textos alusivos ao Estado Novo e a Salazar, do que resultou uma breve troca de e-mails que aqui publico.

Olá Nuno

Envio endereço do blog do João Gonçalves, realçando o post sobre o poema "cansaço" que só podia ter sido cantado por Amália e mais ninguém.

http://portugaldospequeninos.blogspot.com/2010/07/patrimonio-imaterial.html

Se tiveres tempo e paciência, faz uma leitura dos "posts" sobre Salazar, para podermos melhor fundamentar as abordagens que ontem fizemos ao jantar, sendo que aqui o teu amigo, não fazendo apologia do "anciene regime", gosta de reflectir sobre aquele período da nossa história recente, à luz das diversas leituras sócio-políticas quer dos pensadores do "stablichement", quer de outras leituras mais heterodoxas.


Abraço
João
Caro amigo
Vou ler com muita atenção o texto que veementemente referiste ontem.
Não fazendo nenhum de nós a apologia do fascismo, a reflexão sobre o mesmo é interessante – e, concordo, que algumas coisas foram bem feitas. No entanto, “pondo em perspectiva”, sobretudo no contexto europeu, não consigo encontrar motivos de exaltação no facto de termos sido durante aqueles anos (e ainda hoje?) o império decadente, atrasado, fechado e desrespeitador dos direitos humanos como fomos durante 40 anos (ou direi séculos?).
Tenho para mim (preciso de algumas verdades incontestáveis – nem tudo pode ser sujeito ao relativismo na vida de um homem), que o que os regimes fascistas provocaram na Europa do séc. XX, foram dos mais duros golpes que atingiram a sociedade ocidental. Trouxeram o que de pior na nossa raça existe: a intolerância, a ideia de superioridade da raça, a hegemonia das ideias, o silenciamento das vozes dissonantes, o desrespeito pela auto-determinação dos povos, as guerras, a fome, etc. etc., etc. Por isso, e porque sou, como tu, um democrata e acérrimo defensor do respeito dos direitos humanos, tenho alguma dificuldade em sentir simpatia, ainda que comedida por esses tempos.
Essa simpatia, a existir, no meu caso, prende-se com uma maior disciplina no planeamento das cidades, aliás, no planeamento em geral. Simpatizo também com uma sensação de que havia mais respeito, entre novos e mais velhos, entre professores e alunos, etc (embora muitas dessas manifestações fossem mais “respeitinho”, que respeito). Não consigo, à luz do contexto europeu, e com os recursos disponíveis no país, perceber grandes evoluções em Portugal.
Acho que se pode medir a inteligência de um povo pela sua capacidade de, em conjunto, e num contexto de opiniões e correntes divergentes, evoluir, prosperar, sempre na salvaguarda do interesse comum. O fascismo é a antítese disso: a ideia de poucos é imposta aos restantes, sem progresso, e na salvaguarda do interesse de poucos (leia-se Mellos, Champalimauds, Espírito Santos, Finos, etc, etc, etc). Pode-se dizer: bem, o povo é indisciplinado, é selvagem. Sou bem mais favorável à ideia de que as elites são fracas e mal preparadas.
Tenho dito meu velho,
Abraço
Olá velho

que extraordinária e espontânea a tua reacção, a qual denota uma convicção bem determinada e determinante sobre a "bondade/maldade" do que foi o Estado Novo, enquanto repercussor lúcido das ideias e das práticas de alguns regimes autocráticos que na Europa floresceram no século passado.

Congratulo-me por estar patente e bem patente nas tuas convicções, um pensamento tão bem delineado do que queres e, sobretudo do que não queres, para a tua Pátria, e para a sociedade das Nações em geral.

Subscrevo o teu pensamento em tudo o que respeita às limitações/imposições que o regime infringiu às liberdades, às políticas sociais, ao livre mercado concorrencial, bem como ao seu contributo para o empobrecimento cultural e económico do pais.

No entanto, consigo identificar algumas "virtuosidades" do regime em matéria de desenvolvimento (pontual) das colónias, designadamente na organização de novas cidades, com urbanismo e arquitectura de qualidade, assim como no fomento de alguns valores cívicos que, como dizes, confundiam por vezes o conceito de autoridade com o medo, bem português, do "respeitinho". Cheguei a sentir na pele a imposição do "respeitinho", nos idos anos 70, quando ousei entrar no pátio das raparigas da Escola Técnica, para me encontrar com uma namorada. Fui detectado e castigado pelo Director da Escola.

Acontece que, como sabes, também sou o que se pode dizer um esteta, para não dizer detentor de uma mente quase cartesiana. Por isso, e só por isso, sou tangível a algum fascínio pela organização metodológica, traduzida pela afirmação do potentado visual, subjacente às iconografias e às expressões arquitectónicas fortes, típicas dos regimes autocráticos de direita e de esquerda, que vigoraram na Europa do século XX. Trata-se tão só de uma sensibilidade estética que em consciência (não sei o que vai no meu sub-consciente), não denota qualquer endeusamento e/ou apologia do Estado Novo.

Quanto ao resto (ou seja o essencial das práxis do regime), comungo do teu pensamento quase na totalidade, embora detenha a humildade suficiente para interpretar as diversas sensibilidades e leituras (como algumas das que estão em http://portugaldospequeninos.blogspot.com/), as quais permitem completar e contextualizar em banda mais larga, o que foi o século XX português.

Disse.

Em próximas tertúlias, os potenciais intervenientes neste debate (mosqueteiros e amigos), poderão desenvolver melhor esta temática, à luz de 4 eixos principais que aqui proponho:

- O fechamento político do regime e a sua atrofia desenvolvimentista;
- As potencialidades da Educação Nacional face ao quadro herdado da 1.ª República;
- A estratificação social do Estado Novo e as emergências de um novo alpinismo social;
- A administração das cidades do território continental e ultramarino.


Abraço

João

sábado, 16 de janeiro de 2010

Paraíba, Brasil 2010, em casa dos Meirelles


































Em contraste com o post anterior (apagada, vâ e vil tristeza portuguesa), assinalo aqui o contágio magnético e energético que a "alma da gente brasileira" pode provocar no mais sisudo dos portugueses, mesmo que, paradoxalmente, estes tenham estado na origem da identidade pátria (ou mátria) daquela maravilhosa gente.