quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

A OESTE DE PORTUGAL

 
 
 
 
 
 
 
 
 
O retrovisor oferece-me o prenúncio do Lumiar e da perfeição de Lisboa, quando de relance observo o imenso vale de Loures, que deixo para atrás à medida que a auto-estrada me faz subir até aos moinhos que, antigos ou renovados, insistem em não desaproveitar a força dos ventos que sopram bravos nos cumes dos montes saloios.
E os moinhos recortam as linhas, de Torres, da “memorial” Mafra, e de todos os horizontes até ao ponto em que Óbidos nos esconde Peniche e as Berlengas e nos fala das Rainhas, de quem sempre foi jóia maior que a própria coroa.
Óbidos, o castelo que nem o mar resiste a beijar, tornando-se lagoa e criando o arrendado de terra e água que pelo Arelho e deixando a Foz, nos leva às Caldas, por D. Leonor baptizada rainha, e por Bordalo tornada o berço do Zé, que sendo povinho, tem afinal a cara e o gesto de todos nós.
Antes de Leiria e do infinito mar de troncos que sustentam no alto o pinho verde semeado por D. Dinis, o Lavrador, o Alcoa traz-nos à memória o Baça e as terras de Cister que estendendo-se até ao mar da Nazaré de D. Fuas, são sítio, e são a sombra do mosteiro que guardará para sempre as memórias dos infelizes amores de Pedro e Inês.
E por Pedro e Inês, em Coimbra, do sangue se fez a fonte, cúmplice do Mondego que desce da Serra e que antes da Foz recebe o Pranto, para mais à frente, na Figueira, da tristeza do povo do fado, a lágrimas, de sal temperar o mar.
E segue boa a viagem, tal qual a Serra que do cume nos revela a imensidão de verde que parece escorrer do Buçaco para, por entre Quiaios e Mira, nos atapetar o caminho até Aveiro, a nossa Veneza da Ria e do moliço.
Daqui, até Espinho e Gaia, até à Granja, menina do mar e da eterna e maior Sophia, as chaminés que rompem por entre o verde do pinhal, denunciam o trabalho e o músculo da gente nobre e guerreira de entre Douro e Vouga.
Gaia, Douro e Porto…
Pela Arrábida, muito breve se nos faz o caminho, tanta a vontade de ver a cidade, sempre nessa hesitação de espreitar à esquerda a imensidão da Foz ou de relance buscar a Ribeira, única e tripeira, sustentando a perfeição da imperial cascata de tons granito.
Invicto, será sempre o amor pelo Porto.
Cheguei.
Uma manhã solarenga mas fria de Inverno, estrada fora na companhia do pensamento e das memórias, e sempre com as cumplicidades do Atlântico que nos molda o ser e nos marca definitivamente a História.
A oeste, Portugal.
Eterno e legitimado pela força do que nos une. 
Publicado por Francisco Caeiro em:
http://pomardaslaranjeiras.blogspot.pt/


segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

FADO ERRADO
























Dizem alguns cientistas que "o progresso científico é a substituição de um erro por um erro menor". Se a politica fosse uma ciência exacta assim deveria ser também. Mas não, a existência de classes sociais, que se opõem fortemente, perturba a "correcção do erro". O progresso social não é linear como na ciência, mas sim feito de avanços e recuos onde, por vezes, é preciso recomeçar do zero.

A história de Portugal está repleta de exemplos desta dinâmica. O "erro" da monarquia demorou séculos a substituir pelo "erro" menor da República. Mas conseguido esse avanço, de novo a situação se foi degradando, até ser preciso emendá-lo de novo. A correcção, que muitos creram ser para melhor, depressa se revelaria um pesadelo ainda pior que o anterior: foi o fascismo. O "erro" cresceu durante 48 anos, atingindo limites insuportáveis, até mais uma vez o povo repor o rumo no dia 25 de Abril de 1974.

Parecia dado o grande e definitivo salto em frente. Muitos se convenceram que as forças conservadoras nunca mais regressariam e finalmente estava instituída a democracia. Engano. Desde então, os sucessivos governos de alternância sucederam-se com o mesmo objectivo de sempre: repor "o erro" anterior.

Hoje, decorridos quase tantos anos como os que levou o fascismo, a história repete-se. Parece ter chegado outra vez o momento histórico de emendar o "erro".

Há cerca de um século, dois portugueses preocupados com o seu país e com o seu povo, davam-se conta dos mesmos problemas. Um deles, Guerra Junqueiro, na época que antecedeu a revolução republicana, apresentava algumas das razões por que havia que emendar o "erro". Comentava ele acerca do povo, da burguesia, do poder legislativo, da justiça e finalmente dos dois partidos que então, como agora, monopolizavam o poder:
Um povo imbecilizado e resignado, humilde e macambúzio, fatalista e sonâmbulo, burro de carga, besta de nora, aguentando pauladas, sacos de vergonhas, feixes de misérias, sem uma rebelião, um mostrar de dentes, a energia dum coice, pois que nem já com as orelhas é capaz de sacudir as moscas; um povo em catalepsia ambulante, não se lembrando nem donde vem, nem onde está, nem para onde vai; um povo, enfim, que eu adoro, porque sofre e é bom, e guarda ainda na noite da sua inconsciência como que um lampejo misterioso da alma nacional, reflexo de astro em silêncio escuro de lagoa morta.

Uma burguesia, cívica e politicamente corrupta até à medula, não discriminando já o bem do mal, sem palavras, sem vergonha, sem carácter, havendo homens que, honrados na vida íntima, descambam na vida pública em pantomineiros e sevandijas, capazes de toda a veniaga e toda a infâmia, da mentira à falsificação, da violência ao roubo, donde provém que na política portuguesa sucedam, entre a indiferença geral, escândalos monstruosos, absolutamente inverosímeis no Limoeiro.

Um poder legislativo, esfregão de cozinha do executivo; este criado de quarto do moderador; e este, finalmente, tornado absoluto pela abdicação unânime do País.

A justiça ao arbítrio da Política, torcendo-lhe a vara ao ponto de fazer dela saca-rolhas.

Dois partidos sem ideias, sem planos, sem convicções, incapazes, vivendo ambos do mesmo utilitarismo céptico e pervertido, análogos nas palavras, idênticos nos actos, iguais um ao outro como duas metades do mesmo zero, e não se malgando e fundindo, apesar disso, pela razão que alguém deu no parlamento, de não caberem todos duma vez na mesma sala de jantar." (Guerra Junqueiro , 1896).
Apesar desse quadro negro, a esperança popular renascia. O "lampejo misterioso da alma nacional, guardado na noite da inconsciência" do povo, conduziu, 14 anos depois, à revolução republicana. Porém apenas nove anos de regime republicano eram passados e já era preciso novo combate. Fialho de Almeida zurzia fortemente os governantes coevos, não lhes perdoando o desbaratar da esperança ganha com o novo regime:
"Aqui d'el-rei! Isto é uma liquidação geral nos bens do povo; um saque trinta vezes mais vil que o de Junot; uma epopeia de furto, mais audaciosa de que a história célebre de Ali-Babá, onde também figuram cavernas de riquezas, um poderoso chefe e quarenta ladrões. Morreu o chefe (o Rei D. Fernando), as preciosidades foram arroladas, mas os quarenta ladrões multiplicaram-se e por aí continuam a saquear até ao fim. (...)

Conclui-se disto a deliquescência da vida portuguesa, nos seus duplos aspectos da consciência e da moral. Lá começa primeiro uma separação completa e desdenhosa entre os interesses da grossa massa da população, e os da matilha que reparte entre si os dinheiros das rendas públicas, e se crapulisa na porfia escandalosa do poder. Vê-se em seguida a indiferença pública crescer em matéria politica, os jornais serem lidos só por passatempo, os actos do governo serem mencionados só por uma variante de anedotas obscenas, a politica armar em profissão sem hombridade, em impune chantage, e jornalistas e homens de estado enfileirarem, no conceito geral, logo em seguida aos ratoneiros e assassinos. (...) Virá um dia em que o povo desnaturado por todas aquelas lições de compra e venda, farto de ludíbrios e vexames, abdique por fim do seu ideal de autonomia, perca a noção de solo, encha de excremento as páginas da história... e permita Deus que não o ouçamos bramir, com desesperada voz, aos ecos da fronteira:

- Livrem-me desta canalha que me fez odiosa a liberdade, que em paga disso aqui lhes ofereço a minha servidão! (Fialho d'Almeida , Os Gatos , 1919)
Trinta e oito anos decorreram sobre o 25 de Abril. O que se vê crescer é novamente o grito popular: "livrem-me desta canalha que me quer fazer odiosa a liberdade" conquistada em 1974. "A matilha que reparte entre si o dinheiro das rendas públicas" continua a mesma de sempre. É a mesma do fascismo, é a mesma da república, e a mesma da monarquia. A mesma que reparte com o estrangeiro ocupante "o saque trinta vezes mais vil que o de Junot".

O povo, como então, parece estar "farto de ludíbrios e vexames". Mas agora com uma grande e determinante diferença. A experiência ganha com as conquistas pós 25 de Abril trouxe-lhe uma visão do que pode ser uma sociedade mais justa. De que não está disposto a abdicar para "oferecer a servidão" ao ocupante!

Não foi para isto que se fez o 25 de Abril, costuma dizer-se; foi precisamente por causa disto, acrescento. Foi por apresentar os mesmos sinais de "deliquescência da vida portuguesa nos seus duplos aspectos da consciência e da moral" que hoje apresenta, que o povo português foi então chamado a "corrigir esse erro". Saberá fazê-lo de novo, e tantas vezes quantas os seus inimigos, cá dentro e lá fora, insistirem em regressar ao passado. 
Por Guilherme Coelho ... sublinhados meus.

terça-feira, 1 de janeiro de 2013

BOM ANO E "BEBEDEIRAS DE AZUL"













Os dias passam por dentro de tempos decadentes originando os inevitáveis balanços do fim de ano..... mas, lá bem no fundo, encontramos e recuperamos aquela réstia de energia, qual chispa de ignição, para arrancar de novo com realizações, se possível em "bebedeiras de azul". 

BOM ANO PARA TODOS