quinta-feira, 28 de julho de 2011

COMPENSAR A FINITUDE






















«Siempre me ha dado pena la gente que no lee, y no ya porque sean más incultos, que sin duda lo son; o porque estén más indefensos y sean menos libres, que también, sino, sobre todo, porque viven muchísimo menos. La gran tragedia de los seres humanos es haber venido al mundo llenos de ansias de vivir y estar condenados a una existencia efímera. Las vidas son siempre mucho más pequeñas que nuestros sueños; incluso la vida del hombre o la mujer más grandes es infinitamente más estrecha que sus deseos. La vida nos aprieta en las axilas, como un traje mal hecho. Por eso necesitamos leer, e ir al teatro o al cine. Necessitamos vivirnos a lo ancho en otras existencias, para compensar la finitud. Y no hay vida virtual más poderosa ni más hipnotizante que la que nos ofrece la literatura.»

Rosa Montero

quarta-feira, 20 de julho de 2011

1822 de Laurentino Gomes


















Acabei de ler o livro "1822" de Laurentino Gomes, que constitui um verdadeiro repositório de emoções sobre as grandezas e misérias da vida de D. Pedro I do Brasil (D. Pedro IV de Portugal) e das circunstâncias que deram origem à grande nação brasileira.

Todos os portugueses e brasileiros que se sentem emocional e mútuamente próximos (como é o meu caso em relação aos meus queridos amigos brasileiros e vice-versa), deverão ler este livro, porque seguramente, a sua leitura contribuirá para um entendimento mais lúcido da nossa essência e percursos comuns até à actualidade.


Cito a parte final do livro de Laurentino Dias:


"Como um espírito luminoso de duas silhuetas, repartido na morte entre as duas pátrias em que nasceu, viveu, lutou e morreu, D. Pedro permanece hoje como um laço de aproximação entre brasileiros e portugueses.

Apesar das divergências do passado e das incertezas de um mundo em rápido processo de transformação no presente, Brasil e Portugal têm conseguido manter e reforçar com relativo sucesso os seus vínculos ancestrais. Na primeira metade do século passado, portanto já bem depois da Independência, mais de um milhão de portugueses migraram para o Brasil. Seus descendentes directos - filhos, netos ou bisnetos - são estimados hoje em 25 milhões de pessoas. É um grupo que inclui nomes famosos como as atrizes Marília Pêra e Fernanda Montenegro, o director Antunes Filho, o escritor Rubem Fonseca, as cantoras Fafá de Belém e Fernanda Abreu, o baterista Tony Bellotto, a apresentadora Ana Maria Braga, o médico Drauzio Varella, o jogador Zico e os empresários Abílio Diniz e Antônio Ermírio de Moraes.

A partir da década de 90, a onda migratória se inverteu. Portugal foi invadido por dentistas, publicitários, enfermeiras, manicures e administradores de empresa brasileiros, entre outros profissionais, que actualmente formam a maior comunidade estrangeira em território português, estimada em 120.000 pessoas. Todos os anos, 220.000 passageiros atravessam o Atlântico em viagens de turismo ou negócios entre os dois paises.
A produção cultural brasileira - em especial a música, o cinema e as novelas e minisséries de televisão - é admirada e ávidamente consumida em Portugal. Na economia, ocorre o oposto. Há cerca de 700 empresas portuguesas em território brasileiro, algumas das quais são líderes em sectores estratégicos como transportes, comunicações, energia, produção de alimentos e comércio.
Esses números são uma prova de que, dois séculos depois, o sonho do Reino Unido alimentado por inúmeros brasileiros e portugueses até 1882 ainda se mantém vivo. É um reino menos formal do que o imaginado por D. João VI, D. Pedro I e José Bonifácio de Andrada e Silva, porém mais sólido e duradouro porque tem suas raízes plantadas na língua e na cultura que sempre funcionaram como a identidade entre esses dois povos."

quinta-feira, 7 de julho de 2011











 


É comovente o último artigo de Maria José Nogueira Pinto, escrito 2.ª feira e enviado ontem para publicação no Diário de Notícias, onde mantinha uma coluna de opinião. Independentemente das suas ideias sócio-políticas, reconheço-lhe uma vida de coragem e frontalidade na defesa das suas convicções. Mesmo sendo agnóstico, apetece-me dizer que "descanse em paz".

Nada me faltará

por MARIA JOSÉ NOGUEIRA PINTO
Acho que descobri a política - como amor da cidade e do seu bem - em casa. Nasci numa família com convicções políticas, com sentido do amor e do serviço de Deus e da Pátria. O meu Avô, Eduardo Pinto da Cunha, adolescente, foi combatente monárquico e depois emigrado, com a família, por causa disso. O meu Pai, Luís, era um patriota que adorava a África portuguesa e aí passava as férias a visitar os filiados do LAG. A minha Mãe, Maria José, lia-nos a mim e às minhas irmãs a Mensagem de Pessoa, quando eu tinha sete anos. A minha Tia e madrinha, a Tia Mimi, quando a guerra de África começou, ofereceu-se para acompanhar pelos sítios mais recônditos de Angola, em teco-tecos, os jornalistas estrangeiros. Aprendi, desde cedo, o dever de não ignorar o que via, ouvia e lia.
Aos dezassete anos, no primeiro ano da Faculdade, furei uma greve associativa. Fi-lo mais por rebeldia contra uma ordem imposta arbitrariamente (mesmo que alternativa) que por qualquer outra coisa. Foi por isso que conheci o Jaime e mudámos as nossas vidas, ficando sempre juntos. Fizemos desde então uma família, com os nossos filhos - o Eduardo, a Catarina, a Teresinha - e com os filhos deles. Há quase quarenta anos.
Procurei, procurámos, sempre viver de acordo com os princípios que tinham a ver com valores ditos tradicionais - Deus e a Pátria -, mas também com a justiça e com a solidariedade em que sempre acreditei e acredito. Tenho tentado deles dar testemunho na vida política e no serviço público. Sem transigências, sem abdicações, sem meter no bolso ideias e convicções.
Convicções que partem de uma fé profunda no amor de Cristo, que sempre nos diz - como repetiu João Paulo II - "não tenhais medo". Graças a Deus nunca tive medo. Nem das fugas, nem dos exílios, nem da perseguição, nem da incerteza. Nem da vida, nem na morte. Suportei as rodas baixas da fortuna, partilhei a humilhação da diáspora dos portugueses de África, conheci o exílio no Brasil e em Espanha. Aprendi a levar a pátria na sola dos sapatos.
Como no salmo, o Senhor foi sempre o meu pastor e por isso nada me faltou -mesmo quando faltava tudo.
Regressada a Portugal, concluí o meu curso e iniciei uma actividade profissional em que procurei sempre servir o Estado e a comunidade com lealdade e com coerência.
Gostei de trabalhar no serviço público, quer em funções de aconselhamento ou assessoria quer como responsável de grandes organizações. Procurei fazer o melhor pelas instituições e pelos que nelas trabalhavam, cuidando dos que por elas eram assistidos. Nunca critérios do sectarismo político moveram ou influenciaram os meus juízos na escolha de colaboradores ou na sua avaliação.
Combatendo ideias e políticas que considerei erradas ou nocivas para o bem comum, sempre respeitei, como pessoas, os seus defensores por convicção, os meus adversários.
A política activa, partidária, também foi importante para mim. Vivi--a com racionalidade, mas também com emoção e até com paixão. Tentei subordiná-la a valores e crenças superiores. E seguir regras éticas também nos meios. Fui deputada, líder parlamentar e vereadora por Lisboa pelo CDS-PP, e depois eleita por duas vezes deputada independente nas listas do PSD.
Também aqui servi o melhor que soube e pude. Bati- -me por causas cívicas, umas vitoriosas, outras derrotadas, desde a defesa da unidade do país contra regionalismos centrífugos, até à defesa da vida e dos mais fracos entre os fracos. Foi em nome deles e das causas em que acredito que, além do combate político directo na representação popular, intervim com regularidade na televisão, rádio, jornais, como aqui no DN.
Nas fraquezas e limites da condição humana, tentei travar esse bom combate de que fala o apóstolo Paulo. E guardei a Fé.
Tem sido bom viver estes tempos felizes e difíceis, porque uma vida boa não é uma boa vida. Estou agora num combate mais pessoal, contra um inimigo subtil, silencioso, traiçoeiro. Neste combate conto com a ciência dos homens e com a graça de Deus, Pai de nós todos, para não ter medo. E também com a família e com os amigos. Esperando o pior, mas confiando no melhor.
Seja qual for o desfecho, como o Senhor é meu pastor, nada me faltará.

Resta dizer:
Simplesmemte arrepiante!! MJNP fechou com "chave de ouro" esta sua fugaz passagem pelo Mundo dos vivos! Tanto quanto sei, esta Senhora foi um exemplo de Mulher, um exemplo de Esposa, uma Estadista, mas acima de tudo um exemplo de Mãe! As minhas sinceras condolências a toda a familia e que a sua alma descanse em paz! Tenho a certeza que esteja onde estiver "nada lhe faltará"!

João Saltão