Morreu o "Senhor do Adeus"










Senhor do Adeus' fez agora a sua despedida a Lisboa

Durante uma década, João Manuel Serra acenou e sorriu a quem por ele passava, do Restelo ao Saldanha. Centenas de anónimos retribuíram o gesto com mensagens na Internet

"Sinto-me só. Incompleto. Como se algo estivesse a falhar." Para combater esta solidão, confessada ao DN em 2003, decidiu escolher, numa alusão ao fado (uma das suas paixões), uma "estranha forma de vida". Dizer adeus aos carros que por ele passavam na zona do Saldanha e ao longo de toda a Fontes Pereira de Melo foi a missão a que se dedicou nos últimos dez anos João Manuel Serra, ou melhor, o "Senhor do Adeus". Essa função, que exercia sempre acompanhada de um sorriso, cessou na quarta-feira com a sua morte aos 79 anos.

Com o desaparecimento deste ex libris de Lisboa, a solidão parece ter sido transferida para os inúmeros anónimos e alguns conhecidos que diariamente se cruzavam com o senhor a quem agora são forçados a retribuir o derradeiro "adeus". "Estão a dar-me uma notícia muito triste. Foi uma pessoa boa que se perdeu. E esta zona de Lisboa perde parte da alma, sem o seu sorriso e a sua saudação." De queixo caído, Olinda Serrano reage assim quando a equipa de reportagem do DN lhe comunica que o "Senhor do Adeus" morreu.

"Ainda a semana passada o vi. Gostava muito dele. Já este ano lhe dei castanhas, como no Verão lhe oferecia gelados", conta Olinda, enquanto remexe no assador as castanhas que neste São Martinho não pôde oferecer ao seu "amigo". Enquanto avia os clientes, Olinda, visivelmente transtornada, liga ao marido para dar a má notícia.

Notícia essa que já se disseminou pelo mundo real e virtual. O "Senhor do Adeus" recebeu mais de uma centena de homenagens através de um blog e do Facebook. No blog Senhor do Adeus (senhordoadeus.blogs.sapo.pt) foram escritos, até à hora de fecho desta edição, mais de uma centena de comentários ao texto que anunciou a sua morte. O mesmo sucedeu no Facebook, usado para chamar as pessoas aos locais por onde João Manuel Serra passava todas as noites - os encontros começaram no Restelo, terminando no Saldanha.

Em ambos os sítios, o "Senhor do Adeus" comparecia diariamente com o seu ar aristocrático (fato, óculos de massa negra e gel no cabelo) que lhe veio do berço, já que era proveniente de famílias abastadas. "Fui criado numa redoma de vidro", confessou há sete anos ao DN, altura em que admitiu também ter abandonado o curso de Direito e de Histórico-Filosóficas porque "era muito chato".

Amante de viagens e filho de pais separados, viveu a maior parte da sua vida com a mãe, com quem percorreu uma boa parte do mundo. Mundo esse que desabou quando a sua progenitora morreu. Perdido, João Manuel Serra "vestiu a roupa de "Senhor do Adeus".

Foi talvez a forma de João abraçar o teatro, mais uma das suas paixões. Outra era o cinema. Todos os domingos, o ritual era sagrado: ia com dois amigos, que conheceu através dos afáveis sorrisos e adeus, ver filmes ao El Corte Inglés ou ao Monumental. A última fita a que assistiu foi A Rede Social, de David Fincher, no domingo passado. Desta vez foi só com o Filipe Melo, de 33 anos e músico de jazz e realizador, porque o seu outro amigo, Tiago Carvalho de 30 e poucos anos, não podia.

Ao DN, Filipe Melo não quis falar muito sobre o amigo nem do seu modo de vida porque "a missão dele é muito difícil de explicar, mas muito fácil de entender". Resumiu dizendo apenas que era "um símbolo de humanidade".

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