sexta-feira, 26 de junho de 2009

Portugal "líder mundial a repensar a educação para o século XXI"

Na semana passada li a notícia que se segue, a qual comento no fim do respectivo texto.

Educação Portugal "líder mundial a repensar a educação para o século XXI" -especialista canadiano
Lisboa, 25 Jun (Lusa) - O especialista canadiano em tecnologia Don Tapscottaponta Portugal como um exemplo a seguir na educação, elogiando oinvestimento em computadores individuais nas salas de aulas.
Num artigo de opinião publicado no blogue Huffington Post - onde já escreveuBarack Obama -, Tapscott dirige-se directamente ao presidente dos EstadosUnidos da América: "Quer resolver os problemas das escolas? Olhe paraPortugal!".
Na opinião de Tapscott, o "modesto país para lá do Atlântico", que em2005 via a sua economia "abater-se", está a tornar-se no "líder mundial arepensar a educação para o século XXI".
A presença de computadores nas escolas é "só uma parte" dessa "campanha dereinvenção", frisa Tapscott, que aponta a "criação de um novo modelo deensino" como a "maior tarefa".
"Não é fácil mudar o modelo de ensino. Aliás, essa é a parte difícil.É mais fácil gastar dinheiro, como Portugal fez, a pôr Internet nas salas deaula e equipar os alunos com computadores", afirmou, acrescentando ainda que"é demasiado cedo para avaliar o impacto na aprendizagem", até porque osestudos sobre a presença de computadores nas aulas foram "inconclusivos".
"Os professores que enfrentam uma sala de aulas cheia de miúdos comcomputadores precisam de aprender que já não são os especialistas no seudomínio: a Internet é que é", escreve Tapscott.
Aludindo à sua experiência numa sala de aulas numa estadia em Portugal,Tapscott conta como os alunos recorreram à Internet para resolver umaquestão colocada pelo professor: para saber o que era um equinócio, gruposde alunos pesquisaram a informação e quem a descobriu primeiro explicou-aaos colegas".
"Estavam a colaborar, estavam a trabalhar ao seu próprio ritmo e malreparavam na tecnologia, no propalado computador portátil. Era como ar paraeles, mas mudou a relação que tinham com o professor. Em vez de se agitaremnas cadeiras enquanto o professor dá a lição e escreve apontamentos noquadro, eram eles os exploradores, os descobridores e o professor o seuguia", descreve Don Tapscott.
Este modelo, afirma, permite aos professores "descer do palco e começar aouvir e a conversar em vez de fazer sermões" e encoraja o pensamento críticoe a colaboração.
Em oposição, nos EUA, a aprendizagem é "unidireccional", o que faz com queos alunos, que em casa vivem na era digital, com a Internet, os jogos e ostelemóveis, estejam "aborrecidos na escola".
"As salas de aula americanas precisam de entrar no século XXI.Milhares de professores concordam com isto", afirma Don Tapscott, lembrandoque este ano "importantes grupos da área da Educação"pediram a Barack Obama e ao congresso um investimento de 10 mil milhões dedólares para melhorar a tecnologia na sala de aula e garantir que osprofessores sabem usar computadores eficientemente".
Don Tapscott, professor na Universidade de Toronto e membro do grupo dereflexão nGenera Insight, escreveu vários livros sobre tecnologia e visitouPortugal em Abril deste ano.
O Huffington Post congrega blogues, notícias e artigos de opinião.Além de políticos, actores e académicos contribuem para o site.
APN.
Fonte: Agência LUSA


Já tinha lido este artigo, com cujo conteúdo concordei em parte, uma vez que, enquanto ainda especialista em comunicação educacional multimédia, continuo a defender que falta fazer quase tudo na generalização do EAC (Ensino Assistido por Computador) nas escolas portuguesas e de muitos outros paises incluindo os EUA, designadamente no uso das tecnologias em sala de aula visando a promoção de aprendizagens colaborativas.

Cito como exemplo a utilização/simulação de aplicações para estudo de funções (tão úteis no ensino e aprendizagem das leis da física e da matemática), através de uso de software próprio, ou tão simplesmente do uso das imensas potencialidades do Excel, para já não falar no diverso software existente para o ensino e aprendizagem de línguas estrangeiras (tipo "wall street institut"), constituem exemplos de boas práticas de software educativo que nada têm a ver com algumas das aplicações das editoras (conteúdos e jogos) bem como de uma grande parte das edições multimedia do ME.

Ou seja, há mais vida (pedagógica-didáctica) para além do uso livre da Internet na sala de aula, acção que vale o que vale, quando não devidamente monotorizada pelos docentes formados/instruídos para o efeito.

Acontece que para a eficacia pedagógica do uso de metodologias EAC, não é só necessário salas de aula apetrechadas com computadores. Mais importante ainda é contar com a Administração Educativa e os professores disponíveis para essa mudança de paradigma, ou seja, passar da máquina facilitadora do acesso ao conhecimento para a máquina facilitadora da construção do conhecimento, onde o professor terá de ser um bom conhecedor da máquina/ferramenta, ou melhor, das potencialidades do software educativo que explica o uso da máquina.

Não obstante o trabalho desenvolvido nestes últimos anos por alguns especialistas do meio académico em colaboração com os serviços competentes do ME, na concepção e uso de software educativo, tem-se verificado que os decisores políticos, apostaram muito mais no apetrechamento tecnológico das escolas (computadores/banda larga etc.), porque é notóriamente mais visível e eventualmente mais barato, além de demorar menos tempo a "implementar", do que a investigação/investimento/formação na concepção e aplicação pedagógica-didactica de software educativo para generalização e uso nas escolas portuguesas.

Sendo importante e incontornável o uso das tecnologias nas aprendizagens, não é menos importante a mudança de paradigma que emerge do fosso que separa o acesso fácil a conteúdos via internet por parte de alunos e professores, e a construção do conhecimento através do uso de aplicações que integram informação/conteúdos, metodologias de ensino e aprendizagem, bem como a existência de professores detentores de competencias técnico-didacticas adequadas.

Ou seja, continua a ser mais fácil dar o peixe em vez da cana de pesca.

João Saltão

segunda-feira, 22 de junho de 2009

Currículo, competências e prática política

O Estado, através dos Governos e das Administrações que o suportam, tende inexoravelmente para se colocar nos antípodas dos modelos de desenvolvimento sustentado, pelo facto de, entre outras razões sobejamente públicas e publicadas, não aplicar aos seus potenciais decisores (leia-se membros do Governo, Altos Funcionários da Administração Pública, Gestores Públicos etc.), alguns dos princípios básicos de gestão de recursos humanos, nomeadamente ao nível da identificação de perfis de competências adequados para o exercício daqueles cargos.

Nos últimos anos, salvo honrosas excepções de indigitação e nomeação de cidadãos, que pelo seu perfil político, cultural, humanístico, técnico etc., têm contribuído para a consolidação de políticas desenvolvimentistas da governação, o certo é que, em grande parte, os critérios de afectação de indivíduos para os mais diversos cargos do poder político e administrativo do país, baseiam-se em meras relações pessoais de proximidade, justificadas pela presunção da confiança pessoal e/ou política.

Tais nomeações para os mais diversos lugares de assessoria dos Gabinetes e para os cargos da Administração Pública, não são por si só um mau princípio. Mesmo que fale mais alto o conhecimento de proximidade de quem nomeia em relação a quem é nomeado e vice-versa (leia-se amizade e/ou confiança pessoal), ou a própria “fidelidade” partidária (quando existe), afigura-se necessário que sejam consideradas as competências de saber, saber-ser e saber-fazer necessárias para o exercício de funções de serviço público.

Basta consultar o Diário da República e ler o teor de alguns Despachos de Nomeação de assessores e altos funcionários (onde é obrigatório mencionar currículo resumido do nomeado), para se constatar que, por ex.º, um jurista que apresenta como experiência profissional relevante no seu currículo, uma avença com uma pequena empresa de comercialização automóveis do interior centro, passa a ter competências para poder ser Presidente de Instituto Público, Director Geral ou mesmo governante.

Por outro lado, os serviços da Administração Pública, não obstante apresentarem preocupantes sinais de desmotivação e por consequência baixa produtividade, também integram nos seus quadros funcionários com provas dadas de qualificação e competência, que poderiam ser chamados a participar na gestão dos serviços, uma vez que a legislação em vigor só prevê formação especializada para chefias intermédias, não sendo necessária para os cargos dirigentes de topo.

Acontece que os serviços, ao se aperceberem das fragilidades do nomeado no que respeita a questões como a noção de serviço público, liderança, competência, conhecimento de dossiers, etc., nem sempre se envolvem com motivação e empenhamento, quando se apercebem da “passagem” do dirigente nomeado pelos serviços, ditada ao ritmo das idiossincrasias do nosso sistema político. Camões, na sua imensa sabedoria dizia que “chefes fracos fazem fracas as fortes gentes”.

Os nossos parceiros europeus já assumiram há muito tempo a importância das qualificações e dos perfis de competências na gestão dos recursos humanos ao nível da Administração Pública da mesma maneira que a assumem para a gestão das organizações do sector privado.

Para o desenvolvimento de Portugal é urgente uma mudança de paradigma na gestão da “coisa pública”

João Saltão.

segunda-feira, 15 de junho de 2009

"NO FIM FICAREI SÓ"

«Poderíamos dizer que [Michaux] teve de esperar pelo meio da vida para fazer essa mesma experiência da perda que para muitas pessoas começa logo no dealbar da existência, ou seja, o descobrimento traumático de que o outro íntimo se tornou inalcançável. e que, por conseguinte, uma pessoa tem de enquistar-se em si mesma e endurecer-se. De modo geral, resulta válida a sabedoria de que, só poderá converter-se num indivíduo independente, aquele que sabe de uma vez por todas ou que quer saber o seguinte:  
No fim, ficarei só.» Peter SloterdijkNem