domingo, 2 de abril de 2017

A DECADÊNCIA DA FIGUEIRA DA FOZ
















A Figueira como destino turístico, de veraneio hoteleiro ou de 2.ª habitação, está moribunda há muito tempo. Para férias de praia, os destinos do sul português ou espanhol ENTRE OUTROS, satisfazem mais veraneantes e turistas por tanto ou menos dinheiro do que pagariam em destinos como a Figueira. Assim, torna-se necessário identificar uma verdadeira vocação estratégica para a cidade e tudo à volta. O marasmo sempre mortificou os figueirenses projectando visões sebastiânicas de salvadores e soluções vindas de fora. Pelo vistos tal não tem acontecido, nem de fora nem de dentro, excepção (mal)feita ao sector da construção, que transformou o burgo numa cidade fantasma, com um edificado numa escala desregrada muito superior a qualquer veleidade de procura, quer para habitação permanente quer para 2.ª habitação. Oxalá os poderes públicos e/ou o empreendedorismo privado avancem para "clusters" de novos negócios/nova economia, que implique a vinda de novos habitantes, e assim se possa salvar a Praia da Claridade de uma decadência e descaracterização dramáticas, com reflexos irreversíveis no seu potencial de actratividade.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

O INVERNO PORTUGUÊS


















O INVERNO PORTUGUÊS


        No final de 2014 as ruas do centro da cidade pejadas de gente, apresentavam um frenesim quase festivo, como se os tempos fossem de grande excitação, como aconteceu em 1998, quando Lisboa exibiu o grande evento de auto-exaltação nacional – a Expo 98. Os dias estavam bastante soalheiros, embora anormalmente frios, que convidavam nacionais e muitos turistas estrangeiros a passeios pelas principais ruas da Baixa e do Chiado, onde se sentia como que uma aproximação à fruição do chamado espírito de Natal, tão ao jeito das principais capitais europeias, caracterizado pelas ruas plenas de ambientes alegres, feéricos, com coloridas e apelativas aldeias e mercadinhos de Natal, mas que em Lisboa, um cinzentismo qualquer, não deixava espaço para essa dinâmica de festa à maneira europeia.

      Há muitas décadas convencionou-se que o clima em Portugal era particularmente ameno e agradável, com primaveras e outonos suaves, de temperaturas mediterrânicas e verões por vezes escaldantes, sendo que o inverno era de curta duração, com frio e chuva quanto baste, mas que passava depressa. Daí que não se afigurava necessário casas construtivamente aquecidas, além de que as populações, maioritariamente pobres ou remediadas, mesmo que quisessem, não tinham recursos para climatizar as suas casas, um luxo totalmente inacessível. Mesmo o lume das lareiras das cozinhas das casas rurais só aquecia ao redor, mantendo-se o resto da casa fria e húmida nos dias e nas noites tristes do inverno português. 

      Com o advento da democracia em 1974 e com o alargamento da melhoria das condições de vida das populações, começaram a surgir lá por volta dos anos 80, os apartamentos com lareira e mais tarde o aquecimento central em muitas habitações, proporcionando às classes médias emergentes aquele conforto idêntico ao que sentiam nos edifícios e casas das cidades europeias.

      Acontece que chegados aos anos da (des)graça da crise económica e social, as famílias começaram a cortar nas idas ao restaurante, na troca do automóvel, etc. e também, muito particularmente, na conta de gás e da eletricidade do aquecimento das casas, pelo que, com ou sem lareira ou aquecimento central, as casas portuguesas, quer sejam as antigas ou as mais recentes, continuam desconfortáveis, por invernos cada vez mais frios e prolongados. Só entrando nos espaços públicos, lojas, restaurantes e centros comercias climatizados é que se sente aquele conforto quentinho de inverno como na Europa, que nos alenta a alma e o corpo gélido. Saímos destes ambientes confortáveis e logo atravessarmos as ruas, voltando ao contacto com aquele friozinho atlântico e cortante. Costuma-se dizer que nas cidades europeias (como Portugal não fosse Europa), as temperaturas embora baixas, são mais suportáveis. Vá-se lá saber porquê. Por alguma razão a sala de leitura da FNAC do Chiado e de outros espaços públicos quentinhos e confortáveis, têm sempre muita gente no inverno de Lisboa. Sempre se disfarça o desconforto e por vezes a solidão da rua, com uma boa leitura ao quentinho, em silêncio e acompanhado por estranhos, mas acompanhado.

      Vem isto a propósito daqueles dias de inverno marcados por deambulações pela Baixa/Chiado, que descambam em programas solitários, como uma ida ao cinema Ideal ou a uma conferência na Academia das Ciências, espreitar uma sessão de apresentação de um livro, fazer umas leituras na Biblioteca Camões, na FNAC ou na Bertrand, ou outro qualquer evento, que por ali no Chiado sempre acontece. Por vezes sente-se vontade ou necessidade de continuar rodeado de gente, prolongando artificialmente a companhia humana, antes de regressar a casa, e àquele conforto protector, mesmo que solitário, que sentimos quando entramos no nosso espaço.

      O inverno também contempla o Natal, que se sucede invariavelmente ano após ano, nas suas comemorações e tradições, sejam elas as de natureza judaico-cristã, envolvendo o espírito de família amiga, ou as de natureza consumista caracterizadas pela ambiências decorativas do designado espírito de Natal. E assim todos aqueles enfeites dourados, brilhantes encarnados e afins, invadem precocemente (logo a partir de Outubro) o nosso dia-a-dia com musiquinhas alusivas por onde quer que andemos, nos supermercados, centros comercias e até nas ruas da cidade, para não falar das incontornáveis e comerciais iluminações e decorações de espaços públicos, bem como do bombardeamento de jingles e anúncios nas rádios e TVs.

      Quem não se sentir confortável com estes ambientes, terá que se habituar ou tentar passar ao lado, tarefa difícil, uma vez que “vemos, ouvimos e lemos, não podemos ignorar”, como se cantava numa balada de intervenção política nos idos 70.

  O Natal pode também trazer algum desconforto a muitas pessoas que, pelo facto de não terem vivências e referências no seio de famílias tradicionais estruturadas, ou não terem mesmo família constituída. Como farão então para participar na incontornável comemoração da noite de Natal em família? Ou assumem a rejeição da coisa, refugiando-se solitáriamente no seu canto, com o peso psicológico consequente ou não, ou tenta adaptar-se ao espírito da quadra, comemorando-a no seio de uma família amiga. E ele há tantas famílias amigas, sempre dispostas a receber um solitário na sua festa feliz naquela noite mágica. Aqui poderá ser pior a emenda que o soneto. Enquanto dura o convívio e a comezaina tudo bem, mas quando chega aquela hora mimosa da troca dos presentes, entre adultos, crianças e jovens inebriados pelo espírito da coisa, o amigo extra-familiar é brindado também com o seu presentinho, e ali fica meio sem jeito, numa comemoração que não é sua, esperando que o tempo passe depressa para regressar a casa.

      No fim de ano a coisa não é muito diferente, embora esta comemoração não obrigue ao espírito de família, sendo normalmente comemorada com mais gente em ambiente mais festeiro e social. No entanto, chegando novamente a meia-noite, depois dos brindes e dos votos, lá surgem os abraços e os beijos dos conjugues, familiares e afins, ficando o herói solitário entregue à sua sorte de abraçar todos e não abraçar ninguém, e a mais um eventual desconforto, mesmo que instantâneo, que tentará dissimular no convívio da festa.

      A trilogia comemorativa social invernosa, completa-se com as comemorações pagãs do carnaval, que se consegue contornar mais facilmente, uma vez que não implica uma participação notória em representações sócio-familiares como o Natal e o fim-de-ano. No entanto algumas cidades portuguesas insistem em exibir cortejos carnavalescos, por vezes pífios, inspirados na tradição brasileira, que faz com que moças bem despidas tiritem de frio, nos invernos de Fevereiro, sonhando com desfiles esplendorosos nos calores da Marquês de Sapucaí no Rio de Janeiro. 

       Muitos solitários tentam integrar estas comemorações numa lógica de pertença social a grupos de amigos e afins, integrando também solidões dispersas. Com o tempo e o amadurecimento aprende-se a viver entre os pingos de chuva das comemorações e representações sociais, assumindo lúcida e autenticamente a verdadeira dimensão da realidade, ou seja uma espécie de solidão acompanhada.

      O inverno também nos traz insistências teimosas de curtas estadias em cidades de praia, especialmente naqueles dias de chuva, frio e vento, que à parte de um romantismo serôdio de contemplação do mar em dias de tempestade, subsiste aquele desconforto de passear sob o céu gris da invernia, em ruas frias, molhadas e desertas. Aqui ocorre-nos que o verão regresse quanto antes, para que aquela ambiência desoladora de inverno em cidade de praia, se transforme rápidamente em areais de sol e mar, e as ruas cheias de gente e de automóveis, nos devolvem a sensação de estar no centro da excitação da designada silly season, ou seja a estação parva.

João Saltão 

quinta-feira, 9 de junho de 2016

A POUCA VERGONHA INSTALADA PELA "GERINGONÇA" NA CGD












Partilho aqui a crónica de Carlos Reis no faceboock,  onde subscrevo tudo o que afirma, num chamamento à nossa capacidade de INDIGNAÇÃO, desta feita à pouca-vergonha que o governo da "geringonça" pretende instituir na CGD. 

"Ele há coisas que me tiram mesmo do sério. Como se não bastassem todos os dias novas notícias sobre mais buracos e a injecção constante de mais dinheiro nos bancos à custa de todos nós. Como se não bastasse saber-se que vai ser preciso torrar mais 4 mil milhões na Caixa Geral de Depósitos para tapar o resultado de muitas negociatas e favores do regime. Como se não bastasse saber que o futuro Conselho de Administração da Caixa vai ter 19 (!) administradores: a Caixa portuguesa vai ter mais pessoas sentadas no seu CA do que tem o Board da Reserva Federal Americana!!! Como se não bastasse tudo isto parece que se prepara agora o "descongelamento" das remunerações desta rapaziada toda. Ou seja, enquanto os funcionários de carreira do banco (e todos os funcionários do universo público) mantêm os seus salários congelados os senhores administradores não só se vão multiplicar como também irão ser aumentados à grande. É o regabofe a cheirar mal. É isto um governo de esquerda? Que faria se fosse de direita! Infelizmente no esterco deste país parece que a única coisa que muda mesmo são as moscas. E às vezes nem isso".

segunda-feira, 16 de maio de 2016

FÁTIMA, FUTEBOL E FADO














Há muito tempo que não publicava nesta "alma da Nação e a minha". O fim de semana de 13, 14 e 15 de Maio do Ano da Graça de 2016, (re)despoletou-me tal vontade com o seguinte "post".

Este fim de semana cumpriu-se uma aproximação da trilogia aleanatória tão cara ao Estado Novo - Fátima, Futebol e Fado. As duas primeiras foram empolgantes, cada uma à sua maneira, na tradição e crença dos portugueses. A terceira, o Fado, não teve um evento à altura, no entanto podemos identificar uma aproximação mediática que também teve fado do tipo moderno - "os Globos de Ouro" da SIC. Embora sem a expressão popular e massificada dos outros dois, este último evento acaba também por ser tangível, uma vez que premeia os intervenientes das novelas, desporto e afins. Como diria Pessoa ..... falta cumprir Portugal.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

O NÓ DA GRAVATA



















Agora é o uso ou não da gravata que está na ordem do dia. Os novos representantes do poder político na Grécia vieram baralhar as modas. Os jornalistas televisivos até convocam os seus convidados comentadores a pronunciarem-se sobre tão excelso assunto. Há quem não entenda que a gravata não é propriamente um símbolo inquestionável do chamado "bom-gosto". Não percebem que não é um garrido penduricalho ao pescoço que lhes fornece o "saber-estar". E provavelmente nunca imaginaram que há quem não passe cavaco a tal objecto e se sinta bem e bem vestido. Melhor mesmo do que muitos engravatados gabirus que sem o mamarracho na goela ficam sem jeito. O primeiro-ministro italiano até cometeu a indelicadeza de oferecer uma gravata ao seu congénere grego. Enfim, um parolo é um parolo. Com ou sem gravata. 

José Teófilo Duarte

sábado, 13 de dezembro de 2014

O PENSAMENTO LÚCIDO, ESTRUTURADO E ORGANIZADO DE JPP SOBRE A CONJUNTURA


















O COMBATE POLÍTICO DE SÓCRATES NÃO É O NOSSO
Por JPP no Público, sublinhados meus.


Agora que José Sócrates entra no seu último grande combate políticoque é como ele olha para a sua prisão e para as acusações que lhe são feitas – e quando o ano eleitoral vai ser dominado pelo confronto entre os que vão usar a sua “culpabilidade” contra o PS, exigindo demarcações e purgas, e os que vão ver na prisão de Sócrates uma última manobra dos “malandros” que nos governam – duas teses politicamente fortes – resolvi andar para trás, para a memória.

Deixei de lado o argumento “responsável” de que “o que é da Justiça é da Justiça” e “não se deve misturar Justiça e “política”, porque isso pouco mais é do que “linguagem de madeira”, langue de bois, que se pode recitar (e desejar), mas que será varrida pela vida pública concreta que em democracia não é asséptica e inclui tudo: vinganças e amizades, desejos e medos, suspeitas e certezas, imagens e factos. Como é que chegamos aqui? Para quem escreve todas as semanas nos jornais isso significa: viste o que aí vinha?

No livro que publiquei sobre os “dias do lixo” não os comecei por Passos Coelho, Relvas, Gaspar e companhia, mas pelos últimos anos de José Sócrates. Foi aí que começaram os “dias do lixo”. No dia 16 de Outubro de 2010, governava Sócrates, escrevi no Público um conjunto de frases para os “tempos de hoje”. Peço desculpa de me citar, mas a gente também tem de ser avaliada pelo que disse, com data. 

 As frases eram dirigidas a Sócrates, a um Sócrates que tinha ganho as eleições e estava em plena loucura de esbanjamento, e a Passos Coelho, a um Passos que tinha então um discurso contra Manuela Ferreira Leite muito próximo do de Sócrates. Sócrates caminhava velozmente para o PEC IV e a bancarrota, Passos Coelho tinha posições pouco distintas de Sócrates, recusando a austeridade do PC IV, a última que se poderia ter tido sem troika, porque a achava “excessiva”. Passos Coelho prometia não aumentar impostos, nem despedir ninguém, nem cortar subsídios de Natal, nem tocar nas reformas, mas apenas atacar as “gorduras” do Estado. 

Ambos estavam pior do que ceguinhos. Quando falo a seguir de austeridade, falo contra Sócrates e Passos Coelho. E quando elogio a determinação sobre o défice, a dívida, não falo do Passos Coelho de 2012-4, porque os problemas que ele defronta hoje foram em grande parte criados por ele próprio, pelo modo como teve de lidar com o descalabro orçamental gerado pelas despesas sociais resultado da “surpresa” do desemprego e pela depressão na economia. Como escrevi então, a boa política é “a que escolhe as melhores medidas de austeridade e evita as más medidas de austeridade”. Não foi o que aconteceu, a “austeridade” foi conduzida por um programa ideológico, uma profunda ignorância do país e muita incompetência – por isso, os problemas que defrontamos hoje são fruto de Sócrates e Passos Coelho em conjunto. 

Retirei uma ou outra frase, não porque não as pudesse incluir, mas para economia da citação, já de si bastante pouco económica. Serviam apenas para reforçar a frase anterior. Apesar de tudo isto hoje em 2014 parecerem trivialidades, regressem a esse ano de interregno, 2010, entre a vitória eleitoral de Sócrates e a sua demissão, e leiam o que se escrevia e dizia, do PS ao PSD, para comparar. 

Aqui vão algumas das frases de 2010, escritas muito antes da troika: 
   
"1. A crise económica, social e política não vai durar um ou dois anos, vai durar pelo  menos uma  década. Na melhor das hipóteses.    
 
2. O político que disser que as coisas vão melhorar na volta da esquina está a mentir.(…)  
3. Primeiro serão os salários, depois serão as reformas. (…) 
  
4. Nenhum imposto que subiu descerá tão cedo, se descer. 
 
5. Nenhum salário que foi cortado voltará a ser inteiro.   
 
6. Os mais pobres serão as vítimas principais, como sempre.  
 
7. A classe média é que conhecerá a maior queda de qualidade de vida.  
 
8. Algumas pessoas enriquecerão com a crise.  
 
9. A corrupção continuará florescente. (…)
 
10. A crise matará milhares de pequenas empresas. (…)  
 
11. As escolas tornar-se-ão mais caóticas. O clima de crise social é propício à indisciplina grave.(…)
 
12. A Saúde ficará bastante mais cara para todos.
 
13. A TAP pode não sobreviver à crise, a RTP sobreviverá. (…)  
 
14. No final da década os portugueses vão estar pobres e a caminho de ficarem ainda mais pobres. Se nessa altura a nossa situação da dívida e do défice estiver controlada, ganhamos a década. Se não, perdemos ainda mais.
 
15. O estado dos portugueses será de irritação política, na melhor das hipóteses. Na pior poderá haver violência. (…)  
 
16. Liberais e estatistas todos cortarão no Estado. Só não cortarão nas mesmas coisas. 
 
17. Os nossos direitos face ao Estado tornar-se-ão quase inexistentes. Face ao fisco quase nenhum direito sobreviverá.
  
18. A nossa privacidade desaparecerá. O Estado vai conhecer por onde andamos, o que compramos, o nosso dinheiro, as nossas prendas, tudo o que sirva para taxar. O Google conhecerá o resto.  
 
19. O fisco será a face do Estado mais próxima dos cidadãos e a mais odiada. (…)  
 
20. O desespero será um sentimento muito comum. Os ricos terão depressões, os pobres desespero.  
 
21. Esta década conhecerá na prática o fim dos direitos adquiridos. (…)
 
22. A única política que se pode considerar patriótica não é a que se afasta da austeridade para dar “folga” aos portugueses, mas a que escolhe as melhores medidas de austeridade e evita as más medidas de austeridade.
 
23. A maioria das medidas de austeridade que qualquer governo vai aplicar nos próximos anos é escolhida e decidida no exterior, pela Alemanha, pela UE, pelas agências de rating, pelo FMI, e pelos credores.
 
24. Poucos políticos actuais sobreviverão à década, mas isso não significa renovação.
 
25. A maioria dos políticos das novas gerações será profissional da política. Os seus verdadeiros cursos são nos partidos e fora terão apenas cursos de plástico para colocar o dr. e o eng. antes do nome.
 
26. Os partidos serão substituídos pelos aparelhos partidários; fechados sobre si próprios, tornar-se-ão comunidades de poder e com poder. 
  
27. Haverá cada vez mais familiares de políticos actuais nos lugares políticos. 
 
28. A crise de lugares, empregos, salários, benesses tornará a competição dentro dos partidos cada vez mais dura, visto que os partidos serão uma das saídas rápidas para aceder a um lugar remunerado, para que menos qualificações se exigem. (…)
  
29. As eleições partidárias internas serão cada vez mais competitivas, duras e agressivas. Os lugares são poucos e a fome muita.
 
30. Os grandes interesses organizados terão na prática um direito de veto sobre as principais medidas políticas. 

Este foi o mundo que Sócrates deixou e Passos Coelho continuou.  A minha última frase era: "Comparado com o que aí vem nenhuma destas previsões é especialmente pessimista.” Não foram. A realidade foi muito pior: desembocou num ex-primeiro-ministro preso, em altos quadros do Estado presos, na queda do mais poderoso grupo bancário português, adorado pelos aspirantes a singapurianos novos-ricos entre o Martini man e o “homem da Regisconta”, que ainda nos governam, pela mistura de pseudo-aristocracia e altas esferas do dinheiro e do poder. Em que é que isto tem a ver com a prisão de Sócrates? Tudo. Se ele deseja um julgamento político, ele que nos deixou de herança Passos Coelho, como ele foi herança de Santana Lopes, de mim terá apenas a repetição do que disse no passado. 

Para esse peditório político não dou. Este homem fez muito mal a Portugal. Não o quero preso injustamente, nem o quero preso apenas porque fez muito mal ao seu país, até porque o fez com milhões de votos dos portugueses. Desejo-o livre pela sua pura inocência e não pelas suas atitudes de “animal feroz”, arrastando para o seu gigantesco ego um combate político que é suposto ter outros alvos e outros motivos. Apesar das frases politicamente correctas do seu comunicado, pedindo ao PS para ficar à margem, ele não deseja outra coisa que não seja envolver tudo e todos no seu destino pessoal, mesmo que isso implique comprometer a oposição a soçobrar pouco a pouco numa teoria conspirativa. 

Protestem, como eu protesto, contra tudo o que seja abuso do poder judicial, fugas orientadas de informação, humilhações escusadas, mas não dêem o passo que ele deseja que dêem. Por favor, projectem a recusa zangada do Governo para melhores causas do que o destino político do engenheiro Sócrates.

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

O DECLÍNIO DO REGIME OU A JUSTIÇA RENOVADA















TROCA DE CORRESPONDÊNCIA ELECTRÓNICA RELATIVA AO TEMA EM EPÍGRAFE

Ontem enviei a um amigo ex/actual!!! apaniguado/admirador de José Sócrates o seguinte e.mail:

Caro amigo
Ainda me lembro quando me dizias que o José Sócrates, mesmo quando incomodado pelos opositores e dectratores sobre os escândalos em que estava metido, era invencível, devido ao seu caracter e à sua força argumentativa e magnetizadora, perante os seus correligionários e pelos cidadãos em geral (ou se ama ou se odeia), não deixando ninguém indiferente.

A propósito lê o texto alusivo de José Manuel Fernandes, ontem publicado

Abraço
JS

Entretanto o amigo em questão respondeu-me no seguinte teor:

"Grande João

Disse-te sim que enquanto tribuno Sócrates era imbatível (mas penso o mesmo de Louça e já o escrevi). Quanto à força magnetizadora e apesar do termo ser teu eu subscrevo-o pois, como com toda a certeza notaste, ontem mesmo, o António Costa a elogiar as medidas socratistas.  
Apesar de não ser avisado a escrever História quando os acontecimentos ainda estão “no ar", acho que o mito Sócrates ficará para a História como uma espécie de Marquês de Pombal que matou os Távoras e acabou desterrado. Ainda assim teve (e tem) uma legião de admiradores e uma estátua “em cima” da Liberdade.
Repara neste pormaior: se tanta gente quer acabar com o mito Sócrates então é porque não só há mito como é grande.

Questões sociológicas à parte o que eu acho é que a justiça está a ser acusada de dar espetáculo quando na realidade isso não é verdade, pois o espetáculo decorre da curiosidade quase doentia (de todos nós), de ver cada pormenor da desgraça alheia. Não nos podemos esquecer que na execução dos Távoras, que ocorreu  num domingo, as famílias levaram as crianças para ver o espetáculo constituído por pessoas enforcadas, outras a arder, e outras laminadas.

A única coisa que podemos exigir à justiça é que julgue, de forma justa, não só o Zé Sócrates como os Zé Ninguém". 

Abraço.
FF

Respondi ao amigo da seguinte forma:

Caro FF
Não poderia estar mais de acordo com o que escreveste, sobretudo com a analogia establecida com o estadista Sebastião de Carvalho e Melo.
A mesquinhez, a pequenez e a inveja, "qualidades" tão portuguesas, que quando heivadas de má fé, são muitas vezes usadas para destronar, para não dizer destruir, todos aqueles que ousam fazer obra inovando, tal qual aconteceu a Sócrates e a muitos outros.
Acontece que José Sócrates em matéria de carácter, designadamente, petulância, arrogância e, porque não algum chico-espertismo" (independentemente de ter feito ou não as malfeitorias que lhe pretendem imputar), pôs-se a jeito para gáudio e ferocidade dos que gostam de pão e circo, principalmente quando lhes surge uma personalidade tão arrogantemente forte, controversa e deliciosa para queimar/devorar na praça pública.
Era tão interessante que neste momento a Justiça encontrasse meios (ou vestígios!!!) de prova, para proceder à prisão preventiva de Paulo Portas em relação aos submarinos e não só, ao Dias Loureiro e demais implicados no caso BPN, e a tantos outros, para que, além de saciar a voracidade voyeurista dos portugueses para com personalidades fortes e carismáticas que se põem mediáticamente a jeito, também servisse para arrasar de vez o regime encapotado de "Estado de Direito", que ainda vou escrevendo com letras maiúsculas ..... por enquanto.
Abraço
JS